MATÉRIA NOVA!!

Na Caros Amigos desse mês de agosto, publiquei uma matéria chamada As Novas Vozes do Brasil, sobre algumas cantoras que tem se destacado na música brasileira. Deem um pulinho na Banca!

O Anel Pureza

2009 Novembro 20
por menosdetudo

Meu post seria outro, ia retratar o quanto odeio pseudo intelectuais que disparam a falar orelhas de livros mal lidas como verdades absolutas. Nada pior quando o senso comum se apropria de determinadas categorias e as reproduzem sem embasamento nenhum.

Mas durante uma conversa na redação sobre o filme “Lua Nova”, da série “Crepuscúlo”, e o novo esteriótipo de homem que agrada as adolescentes, descobri que está na moda entre a juventude, principalmente a america, usar o “anel da pureza”. Repita, por favor, “anel da pureza”.

Segundo o que meus amigos jornalistas me contaram, tal anel simboliza a virgindade e que a pessoa só vai ter relações sexuais depois do casamento, exaltando a super valorização do amor. Os representantes famosos dessa nova onda são os meninos do Jonas Brothers, uma banda que ganhou popularidade no Disney Chanel e Miley Cyrus, protagonista do ‘Hanna Montana’, seriado do mesmo canal.

Fiquei estarrecida ao ouvir tal notícia, como assim essa nova geração está querendo voltar à época da castidade? Fui pesquisar na internet, e meu pavor só aumentou.

De acordo com o Wikipedia, esse movimento começou nos Estados Unidos, na cidade de Baltimore, em 1994.” Foi uma iniciativa do pastor Danny Patton, preocupado com a sexualidade de suas filhas e com a decadência moral americana. Ele propõe a espera do adolescente para viver experiências sexuais em um contexto de fidelidade e compromisso: o casamento.

O lançamento oficial no Brasil aconteceu em maio de 2008, no Tribal Generation. O evento foi realizado na cidade de Uberlândia (MG), um movimento de redes ministeriais que reuniu aproximadamente quatro mil participantes, entre eles brasileiros e latinos de 17 países.

Acredita-se que mais 300.000 pessoas já participaram de algum evento do Silver Ring Thing e mais de 110.000 já aderiram o movimento, sendo uma realidade em vários países como França, Romênia e Africa do Sul.”

Estamos vivendo uma época de retrocesso, que ainda não conseguiu firmar sua identidade e pior do que isso, está jogando fora todas as conquistas políticas e sociais, como a revolução sexual, a batalha pela igualdade dos sexos, o direito ao próprio corpo, o sexo fora do casamento, o sexo como um ato de prazer, não como reprodução.

Respeito a opinião de cada um, e acredito que isso é fator fundamental para o debate. O fato dessa tomada conservadora me assutar vem dos fatos históricos, das coisas que já aconteceram para servir a moral e a família. Com o aperto dos laços a brecha para a intolerância aumenta.

FCH, toma vergonha vai!

2009 Novembro 17
por menosdetudo

A jornalista da Folha de São Paulo, Mônica Bergamo, divulgou no último domingo (15), que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso vai reconhecer o filho que teve, há 18 anos, com a jornalista da Globo, Mirian Dutra. Essa foi a primeira vez que um veículo da grande mídia falou sobre o caso, que fique bem claro, FOI A PRIMEIRA VEZ QUE A GRANDE MÍDIA FALOU SOBRE O CASO, PORQUE NA VERDADE TODO MUNDO JÁ SABIA DISSO MUITO TEMPO!

Agora que sua mulher faleceu e as aspirações políticas e eleitoreiras de FHC se foram, esse assunto foi liberado para se “tornar” público, e a Folha deu o “furo”. Será que o ex-presidente acha que conseguiu fazer todo mundo de palhaço nesses 18 anos? Que esse complô que ele travou com a emissora foi guela à baixo daqueles que tem o mínimo de informação e conhecimento dos fatos políticos que acontecem no país?

No ano 2000, a Caros Amigos publicou a reportagem ‘Por que a imprensa esconde o filho de 8 anos de FHC com a jornalista da Globo?’. Nela os jornalistas Joõa Rocha, Marina Amaral, Mylton Severiano, José Arbex Jr., Palmério Dória e o grande Sérgio de Souza, destrincharam toda a história, dos jantares do então senador FHC com a jornalista, até todo o sistema da grande mídia para abafar o caso.

A reportagem por si só já é uma aula de jornalismo, de apuração dos fatos, as informações ali citadas, nem se fala. Se eu não me engano, essa edição foi a que mais vendeu na história da Caros Amigos, tiveram até que fazer uma nova tiragem na época.

Vale a pena ler, ainda mais agora.

POR QUE A IMPRENSA ESCONDE O FILHO DE 8 ANOS DE FHC COM A JORNALISTA DA GLOBO?

Esta reportagem começou assim: o jornalista Palmério Dória ofereceu para Caros Amigos um artigo cujo título era “Presidente, Assuma!”, referindo-se ao filho gerado do romance entre Fernando Henrique Cardoso e a jornalista Miriam Dutra quando o atual presidente da República era senador. A jornalista trabalhava, e trabalha ainda, para a Rede Globo, na ocasião como repórter em Brasília, hoje como correspondente em Barcelona, Espanha.

O artigo, depois de dizer que o casal era visto nas noites de Brasília a partir do final de 1988, contava em detalhes, revelados por testemunhas, a reação irada do então senador, com xingos à jornalista, expulsão da sala e um pontapé no circulador de ar, que foi parar longe, no dia em que ela foi ao seu gabinete participar-lhe a gravidez. Abordava em seguida a situação criada após o nascimento da criança, em 1991, quando a estrela do senador começava a brilhar na política, projetando contornos para uma candidatura à presidência da República.

Citava a participação dos amigos Sérgio Motta e José Serra, “cabeças do projeto presidencial”, no episódio, primeiro conseguindo para a mãe e a criança um apartamento mais confortável na Asa Sul, onde ela já morava mais modestamente, e, depois, fazendo gestões junto ao diretor de jornalismo da Rede Globo, Alberico Souza Cruz, que é o padrinho do menino, no sentido de transferir a jornalista para Lisboa, o que se efetivou.

Dizia ainda o artigo que, a certa altura, esses três personagens foram substituídos, no que o autor chama de “corpo de bombeiros”, por um conhecido lobista de Brasília, aparentado de Miriam Dutra que em determinadas rodas é chamado de “o homem que sustenta o filho do presidente”. Antes de encerrar o artigo, o autor pergunta por que tanto segredo, por que a “conspiração de silêncio” da imprensa em torno da história, listando uma série de políticos e personagens públicos que em casos semelhantes viram noticiados os fatos que haviam protagonizado.

Ao entregar o texto, o jornalista sugeriu que o ilustrássemos com uma foto de Miriam Dutra. E foi aí que as coisas passaram a tomar outro rumo.

Quando procuramos, por telefone, o Departamento de Documentação (Dedoc) da Editora Abril, que vende esse tipo de material, como todas as empresas jornalísticas, ficamos sabendo que lá havia uma única foto da jornalista da Globo, tirada da tela de uma televisão por um fotógrafo da revista Veja, que em 1994 preparava uma reportagem sobre o caso Miriam Dutra/FHC, candidato à presidência da República. Para isso a revista tinha enviado a repórter Mônica Bergamo a Lisboa. O funcionário do Dedoc tratou do assunto com naturalidade, pedindo que aguardássemos um minuto na linha enquanto ultimava os trâmites rotineiros para o envio da foto.

Quando voltou ao telefone, desapontado disse que a foto não podia ser liberada, não sabia por quê. Pedimos que transferisse a ligação para a direção do Dedoc, que atendeu, se disse surpresa com o fato, que iria verificar o que estava acontecendo e nos ligaria em seguida. Depois de uma hora, ligou dizendo que realmente a foto não podia ser liberada porque era de autoria desconhecida, envolvia o nome da Globo e, assim, estava bloqueada.

Primeira providência: localizar o fotógrafo, que não estava mais em Veja, trabalha agora para o Correio Braziliense, jornal de Brasília. Ele confirma haver feito a foto para uma “matéria de gaveta”, no jargão jornalístico aquela matéria que espera a ocasião oportuna para ser publicada ou fica para sempre enterrada. “Fiz a foto da televisão porque toda a imprensa tinha a matéria e, se um desse, todos davam”, disse ele.

Essa informação não só já havia transpirado de Veja, por outra via, como a direção da revista dissera à repórter enviada a Lisboa que ela estava indo procurar Miriam Dutra para que não corressem o risco de ser “furados” por alguém. De qualquer forma, na volta a repórter entregou um relatório com a entrevista feita com Miriam Dutra, que não quis revelar o nome do pai, disse que o pai não merecia aquele filho, deu detalhes do parto etc. e a matéria foi para a gaveta, apesar de a direção da redação estar dividida, votos a favor e contra sua publicação, prevalecendo ao final o “não” do diretor, Mario Sergio Conti.

Sabe-se que houve ameaça à Abril, por parte da irmã de Miriam Dutra, Magrit, que por telefone disse que quebraria (financeiramente) a editora, caso a matéria fosse publicada.

As contradições apontaram definitivamente para a investigação. Íamos procurar saber como são, a partir de fatos, as relações entre o presidente da República e a mídia. Precedentes já havia, como o da época da reeleição, por exemplo, quando o presidente chamou a Brasília todos os donos dos grandes veículos para pedir uma ajuda em favor de sua candidatura quando em maio/junho de 1998 ela periclitou nas pesquisas de opinião pública.

Antes de qualquer coisa, precisaríamos ouvir Miriam Dutra, procurar confirmar o “segredo de polichinelo”, como dizem jornalistas que conhecem a história. E praticamente todos os diretores de redação à época das eleições de 1994 a conhecem, embora muitos – iríamos pedir a palavra de todos eles – fossem argumentar que não publicaram a matéria porque a mãe da criança não havia procurado a imprensa nem a Justiça e só nessas circunstâncias as normas internas admitem a publicação.

O que não é verdadeiro, sabe-se de pelo menos um fato semelhante a esse em que houve até exploração tendenciosa por parte da mídia, fato revelado também em época de campanha presidencial, a de 1990, envolvendo a filha do candidato Lula, trazido a público por um repórter do Jornal do Brasil que foi investigar a história e não porque algum dos envolvidos tivesse procurado a imprensa ou a Justiça.

Outro argumento de diretores de redação em defesa da não publicação da história que resolvemos contar é o de ela não ser um fato jornalístico. Esquisito não considerar fato jornalístico um presidente da República ter um filho fora do casamento com uma jornalista da Rede Globo.

Fomos, então, procurar Miriam Dutra, por intermédio de um jornalista brasileiro, João Rocha, que está morando em Barcelona. Eis o seu relato, de 30 de janeiro deste ano:

“Descobri um Colegiado de Jornalistas onde havia um Centro Internacional de Jornalistas. Consegui achar Miriam Dutra em uma lista absolutamente equivocada – a de Madri, mas com um endereço de Barcelona. Fui até lá. É um bairro de classe média alta, na parte mais moderna da cidade. Achei a rua, mas penei para achar o prédio. Enquanto pedia informações na rua para localizar o número que buscava, encontrei acidentalmente um brasileiro. Um homem de seus sessenta e poucos anos, artista plástico paraibano. Havia deixado o Brasil em 1963, mas conservava intato o sotaque, mesmo falando catalão ou espanhol. Seu nome é Oto Cavalcanti, figura interessante, também se confundiu muito para achar o prédio que supostamente era no quarteirão em que ele morava. Quando falei que procurava uma jornalista brasileira, ele lembrou que a moça da banca de jornal havia lhe falado de uma jornalista brasileira da Globo vivendo por perto. Fomos até a banca. A moça se mostrou muito simpática até eu perguntar sobre Miriam Dutra. Aí ela mudou de expressão, de tom de voz e falou que Miriam já se havia mudado e que nunca mais a tinha visto. Perguntei outra coisa e ela simplesmente me ignorou, como se eu não pudesse saber de mais nada. Essa moça, eu soubera um pouco antes pela sua ajudante, tornara-se amiga de Miriam em suas compras diárias de jornais e revistas. Saí da banca com mais algumas informações, porém achando que o endereço que eu tinha estava errado e, além disso, sabendo que Miriam havia se mudado. Mas continuei procurando e perguntando para as pessoas. Todos desconheciam o número, exceto seu Manuel, porteiro português que trabalha há anos na região: ‘Esse prédio fica naquele bulevar atrás do muro do Gaudí, todo mundo se perde’. Já era noite e o muro estava iluminado. Lindo! E atrás dele estava o número 61 da rua Manoel Girona. Visivelmente um prédio de classe média alta. O porteiro não estava, mas a caixa de correio mostrava que Miriam não morava mais ali. Esperei que algum morador ou o porteiro aparecesse. Foi o tempo de um cigarro. Lá vinha ele, um típico catalão de uns sessenta anos. Foi dele que pude conseguir a mais rica descrição da nossa personagem. Me descreveu seus hábitos, jeito etc., coisas que um porteiro sabe como ninguém. Falou que ela mudara havia uns seis meses, para perto, e que não a via desde o Natal, quando tiveram uma ligeira discussão sobre as cor-respondências que ainda chegavam para ela e que já não queria receber. Foi aí que ele completou o perfil que eu estava montando desde que comecei a pensar na personagem: ‘É uma pessoa muito fechada, apesar de ter sido sempre correta comigo. O que eu vou fazer se uma pessoa não quer deixar seus rastros?…’

“Chegando em casa, organizei as anotações e quase joguei fora o número do telefone que supostamente seria o de Miriam, já que o porteiro me havia assegurado que a linha tinha ficado com o novo inquilino. Mas resolvi tentar: ‘Alô’, eu ouvi, tomando um susto tremendo, e então perguntei em espanhol se era da casa de Miriam Dutra. ‘Si, un momento.’ E ao longe: ‘Mãããe!’ Era ele, Tomás. Com o coração disparado de quem busca algo durante tempos e encontra por acaso, não tive rapidez para fazer outra coisa que não esperar por Miriam. E ela atendeu: ‘Hola’. ‘É a Miriam Dutra?’ ‘Sim’. ‘Oi, Miriam, meu nome é João Rocha. Sou um jornalista brasileiro que está vivendo em Barcelona. A revista Caros Amigos está fazendo uma reportagem em que cita o seu nome e pediram que a procurasse para ouvi-la’. E ela, meio transtornada: ‘Cita meu nome? Em quê?’ ‘Olha, fala de um suposto caso que você teria tido com o nosso presidente da República, Fernando Henrique, e de um filho que teria resultado desse relacionamento’. Pelo silêncio que se fez, esperava ouvir o telefone dela batendo no gancho, mas não. Veio a resposta: ‘Olha, João, eu não vou falar nada sobre essa história. Eu não sou uma pessoa pública. Se vocês têm algo para perguntar, não é para mim. Perguntem para a pessoa pública’.”

A afirmação de Miriam Dutra era definitiva e, no mínimo, removia de vez a argumentação de jornalistas que não contam o que sabem escudando-se em manuais de redação. Seguiríamos sua sugestão de procurar a pessoa pública dessa história, mas só depois de ouvir todos os diretores de redação da época em que o caso aflorou mais fortemente, 1994, FHC candidato. Devíamos começar por Veja, de onde a lebre foi levantada a partir da foto proibida.

Palmério Dória conta sua tentativa:

“Liguei para Mario Sergio Conti, que durante a primeira eleição de FHC era diretor de redação de Veja. Previa certa animosidade, porque naquela semana tinha saído em Caros Amigos um quadro comparativo que fiz entre famosos de ontem e de hoje – ‘Portrait du Brésil: décadence avec desélégance’. Entre as quarenta comparações (por exemplo: JK/FHC; bossa nova/pagode; Ataulfo Alves/Alexandre Pires; mar de lama/Proer; Marta Rocha/Adriane Galisteu), sobrou para o autor do best-seller Notícias do Planalto: David Nasser/Mario Sergio Conti. Quer dizer, esperava animosidade mas não a tempestade que desabou: ‘Mario Sergio, estou fazendo uma matéria sobre aquela história que todo mundo fala mas ninguém conta, o suposto filho do Fernando Henrique…’. ‘Palmério, você acha que eu vou mover uma agulha por você?’ (ainda contendo a fúria) ‘Você me comparou com o… David Nasser…’ Tentei dizer algo em meio ao atropelo de impropérios que se seguiu: ‘Mario, estou ligando para o cargo, você tinha a função de diretor de redação…’. ‘Eu não sou da sua laia. (berrando) Leve a sua calhordice até o fim!’ Berrando, desligou o telefone.”

Em seguida, Palmério falou com mais três jornalistas que ocupavam posto de comando nas publicações em que trabalhavam durante a campanha presidencial de 1994:

“Augusto Nunes, hoje dirigindo a revista Época, era diretor de redação do jornal Zero Hora, de Porto Alegre. Temos uma considerável convivência, começamos juntos no Estadão: “

“- Augusto, falam que todos os jornalões e revistas tinham essa matéria e que, se um desse, todos dariam. Vocês tinham também, para a eventualidade? “

“- Não chegamos a ter. Claro que a questão foi levantada na redação: ‘Fizeram uma sacanagem com o Lula, e agora como é que é?’ Mas quem fez a sacanagem com o Lula foi a Miriam Cordeiro. No caso do Fernando Henrique, a suposta mãe diz que não é. O filho tem um pai no papel, e ela não fala que Fernando Henrique é o pai. A Zero Hora nem partiu para levantar o assunto, que circulava realmente em todas as redações. “

“Aluízio Maranhão, diretor de redação do Estadão naquele tempo, hoje também na revista Época, garante que o jornal dos Mesquita não tinha matéria de gaveta sobre o caso: “

“- Havia um obstáculo intransponível: ela nega. O rapaz – o registro do menino: ele tem um pai legal. Você vê o caso do Lula. A filha existe, a mãe assumiu, se deixou usar como munição política. Tem que ter algum BO (não Bom para Otário, mas Boletim de Ocorrência). Sendo verdade, termina servindo de munição. Isso vale para um suposto filho de um presidente e para um suposto consumo de drogas de um presidente. Você tem que ter provas e testemunhas com um mínimo de credibilidade. Não tem nada a ver com status social. Por todas essas razões, não chegou a ser tema de discussão, por absoluta falta de provas. Houve um momento em que o site do PDT fez circular uma matéria do Diário de Notícias, de Portugal, com a história. Foi malandragem com interesses político-partidários e decidimos não noticiar. E essa foi a decisão de todos os órgãos. “

“Hélio Campos Mello, diretor de redação de IstoÉ, comigo foi sempre de uma afabilidade total. Mas, toquei no assunto, adotou o chamado distanciamento crítico, tornou-se seco e objetivo: ‘Não tenho uma história, não tenho a certidão de nascimento, não tenho uma mãe dizendo que o garoto é filho dele (o presidente). Alguém pode dizer: ‘Ah, ele é parecido’. O filho do Collor é quase um teste de DNA’!”

Palmério não perguntou, e o diretor de redação de IstoÉ talvez não tenha tomado conhecimento, mas sabe-se que um repórter da revista fez a matéria e ela foi engavetada, por instância do proprietário da editora, que disse:

“Não sou louco, tenho negócios”. Esse mesmo empresário já disse, em tom de brincadeira, para quem quisesse ouvir: “Sou mesmo um bandoleiro da imprensa; os outros também são, mas não dizem”.

Como estivéssemos entrevistando jornalistas, rapidamente a matéria passou a ser comentada nas redações, obviamente indo parar nos corredores do poder federal. Combinamos um jantar, numa churrascaria em São Paulo, com um jornalista que está trabalhando para o governo. Ele disse que havia uma preocupação com a matéria nos altos escalões, amigavelmente desaconselhando-nos a publicá-la.

Fez ver que a editora, caso Caros Amigos saísse com a reportagem, podia enterrar a pretensão de conquistar anúncios ou qualquer serviço editorial da área governamental, que abertamente havíamos pleiteado com ele como pleiteamos junto a todo o tipo de empresas insti-tucionais. Ao contrário, acenou, não saindo a matéria eram muito boas as chances de obtermos no futuro algum tipo de serviço editorial para órgãos públicos.

Em um almoço, numa cantina, também em São Paulo, Palmério Dória, que julgavam ser o único autor da reportagem, receberia, por intermédio de um amigo jornalista, convite para ir trabalhar na assessoria de imprensa da Petrobrás, no Rio. Perguntou ao amigo de quem partira o convite, o amigo declinou o nome do lobista aparentado de Miriam Dutra. Os lobbies em favor do silêncio começavam a convergir.

Um deputado federal da oposição liga para a redação pedindo o telefone particular de José Arbex Jr., editor especial de Caros Amigos. O telefone é fornecido. Arbex conta o diálogo ocorrido depois das saudações de praxe:

“- E aí, o que você manda?”

“- Rapaz, eu queria te dar um toque, mas é em caráter pessoal.”

“- Pode dizer.”

“- Pois é, eu estava conversando outro dia com um cara que é muito ligado ao governo, e ele me disse que o pessoal estava preocupado com uma reportagem que a Caros Amigos está fazendo, o cara até me perguntou se eu sabia qual era a da Caros Amigos, se ela é do PT…”

“- Do PT?”

“- Pois é, rapaz, do PT. Eu falei que não, disse que não sabia nada sobre a Caros Amigos, até que passei numa banca de jornal e li o expediente da revista, e vi que conhecia algumas pessoas da redação. Por isso resolvi te ligar.”

“- Sei, mas qual é a preocupação do governo? “

“- Eles acham que vocês estão fazendo uma matéria escandalosa envolvendo o presidente. Eu acho que não é o caso, pois, conhecendo vocês, eu acho que não iriam por essa linha de sensacionalismo barato.”

“- Ih, não é nada disso. Os caras, pra variar, estão mal informados. A reportagem não é sobre a vida do FHC, mas sim sobre a relação da mídia com o FHC, o silêncio cúmplice, essas coisas…”

“- Ah, bom, eu sabia…”

“- Mas eu não entendi muito bem qual é o toque que você disse que ia me dar.”

“- É que eu vi que os caras estão preocupados, e como te conheço há muito tempo, e tem uma relação de confiança, apesar de talvez existirem divergências políticas, então resolvi conversar com você em caráter pessoal. Os caras estão muito preocupados, rapaz… “

“- Eu te agradeço a confiança, mas a gente não vai promover nenhum sensacionalismo.”

Nesse mesmo mês, fevereiro, liga para Sérgio de Souza, editor de Caros Amigos, o diretor de redação da revista Imprensa, Tão Gomes Pinto. Diz estar intercedendo em nome de Miriam Dutra, que lhe telefonara de Barcelona cheia de preocupação em relação à matéria e que ela queria falar com Sérgio. “Pois não”, respondeu Sérgio, dando ao interlocutor todos os seus números de telefone. O diretor da revista Imprensa, antes de desligar e depois de muito insistir sobre a preocupação de Miriam, disse que qualquer dia iria fazer uma visita à redação de Caros Amigos, que não conhecia ainda.

Antes que se passasse meia-hora, anunciam que Tão Gomes Pinto está na recepção, quer falar com Sérgio. Desce, cumprimentam-se, Tão vai repetir que Miriam está preocupadíssima mas que resolveu não telefonar para Caros Amigos. O tom resvala à dramaticidade. Sérgio pergunta se são amigos, Tão responde que conheceu Miriam nos tempos de Brasília, não chega a dizer que eram amigos. No meio da conversa, Sérgio, que tinha a informação de que Tão e o lobista aparentado de Miriam estavam naquele momento esgrimindo conjuntamente um lobby junto a uma empresa brasileira, pergunta se o diretor de redação da revista Imprensa conhece fulano de tal (dá o nome do lobista).

Tão olha para o alto, como se buscasse na memória o personagem, até que, no timing certinho, diz que sim, mas que não vê o homem faz muito tempo, mais de ano. A pergunta faz com que a conversa se dilua, Tão chega a comentar, em tom cúmplice, que a nossa matéria devia ser feita pela revista Imprensa e despede-se fraternalmente, levando alguns livros da editora de Caros Amigos, a Casa Amarela, para divulgar em sua revista.

Diante disso, embora convictos de que se tratava de uma mentira encomendada pelo lobista, pedimos ao repórter de Barcelona que perguntasse a Miriam Dutra se ela havia pedido a intercessão do diretor de redação da revista Imprensa. O pedido a João Rocha, como o primeiro, foi feito por Mylton Severiano, que participava também da reportagem e é amigo do jornalista que vive em Barcelona. Mylton recebeu então o seguinte e-mail:

“Logo depois de receber sua mensagem, encontrei um amigo brasileiro para ir almoçar. Na fila do restaurante, falávamos nosso portuguesinho despreocupado quando uma moça atrás de nós me cutucou no ombro: ‘Vocês são brasileiros, não?’ E se apresentou:

‘Me chamo Tânia, sou de Brasília, estou fazendo doutorado aqui na faculdade…’. Foi justo no momento em que me deu o estalo e, com aquele tipo de palavras que você não sente sair da boca, perguntei: ‘Você é amiga da Miriam Dutra, não?’ E ela, surpresa: ‘Ah, a Miriam, sou, como você sabe?’ E eu, ainda naquele estado: ‘É que ela me falou de você, que havia chegado há pouco tempo e que estava procurando apartamento para alugar’.

‘Procurando apartamento? Não, imagina! Moro aqui há três anos!’ Nesse momento, o mundo se contorce e já não se entende mais nada. Mas, como eu, ela também fazia doutorado e, momentos depois, coincidências esclarecidas, resolvo puxar o assunto do filho do presidente e explico minha relação com Miriam: o interesse no suposto caso que Miriam supostamente teria tido com o presidente, do qual supostamente teria nascido um suposto filho, supostamente presidencial. ‘Suposto?’, me interrompe a moça. ‘Suposto, não! É do Fernando Henrique. Ela não te contou? É a cara do presidente!’

“Chegando em casa, ligo para Miriam. Quem atende novamente é Tomás: ‘Péra um pouquinho. Maãããnhê!’ Longa conversa, como havia sido a primeira, dessa vez contabilizada pelo cronômetro do telefone: uma hora e dez minutos. Quanto ao movimento de sugestão de silêncio, ela diz não ter a menor idéia de onde saiu. Fala que não tem nada a ver com isso e que a última pessoa com quem havia conversado sobre o assunto fui eu. Tão Gomes Pinto ela diz conhecer apenas profissionalmente, como jornalista respeitado, e que não tem nem sequer o telefone dele. Comenta o contrato dela com a Globo, anual, de prestação de serviços no exterior, ‘como há uns quarenta mais’, acrescentando que veio por razões profissionais e por sua própria conta. Fala, também, em tom ameaçador mas brando: ‘Se a revista publica uma coisa dessas, vai ter que provar. Sei dos meus direitos e conheço os meios jurídicos. Vai ter que provar’. E, enfim, depois de eu muito cutucar, saiu: ‘Tomás Dutra Schmidt, nascido no dia 26 de setembro de 1991 à zero hora e quinze minutos em uma maternidade de Brasília, batizado pela avó materna e registrado na mesma cidade somente no nome da progenitora’. Levando portanto sobrenomes iguais aos dela.”

A repórter e editora executiva de Caros Amigos, Marina Amaral, iria a Brasília para, além de solicitar uma audiência com a “pessoa pública”, tirar uma cópia, no respectivo cartório, da certidão de nascimento do menino. Antes, porém, como estava pautado, trataria de colher os depoimentos utilizados pelos grandes veículos para justificar o fato de nunca terem tratado do assunto.

Começa por Alberico Souza Cruz, atualmente na Rede TV!. A telefonista atende, Marina diz que deseja falar com ele, a ligação é transferida, atende voz masculina, Marina pede:

“- Por favor, o Alberico. ‘

“- Quem gostaria de falar? ‘

“- É Marina, da Caros Amigos. ‘

“- Oi, Marina, tudo bem? É o Alberico. ‘

“- Que bom, nem pensei que seria tão fácil falar com você… (risos) ‘

“- Com prazer, pode falar.’

“- É um assunto meio delicado, mas, como vamos dar a reportagem na próxima edição, tenho de perguntar. A reportagem fala do filho da Miriam Dutra com…’

“- Me desculpe, mas, sobre esse assunto eu não falo. ‘

“- Mas a reportagem até diz que você é o padrinho do menino… ‘

“- É, mas sobre esse assunto eu realmente não falo. Me desculpe. Até logo.”

O sucessor de Alberico na direção de jornalismo da Rede Globo é Evandro Carlos de Andrade, ex-diretor de redação do jornal O Globo, função que exerceu de 1972 a 1995. Autoridade máxima e palavra final do jornal, seu depoimento para uma reportagem que põe em discussão as atitudes da imprensa diante de determinados fatos era de grande importância.

No caso, principalmente porque foi na sua gestão que O Globo publicou, em 14 de dezembro de 1989, data em que a televisão transmitiria, à noite, o debate que decidiria a eleição presidencial em favor de Fernando Collor, o seguinte editorial, destacado na primeira página:

“O direito de saber ‘

“O povo brasileiro não está acostumado a ver desnudar-se a seus olhos a vida particular dos homens públicos. “O povo brasileiro também não está acostumado à prática da Democracia.’

“A prática da Democracia recomenda que o povo saiba tudo o que for possível saber sobre seus homens públicos, para poder julgar melhor na hora de elegê-los. ‘

“Nos Estados Unidos, por exemplo, com freqüência homens públicos vêem truncada a carreira pela revelação de fatos desabonadores do seu comportamento privado. Não raro, a simples divulgação de tais fatos os dissuade de continuarem a pleitear a preferência do eleitor. Um nebuloso acidente de carro em que morreu uma secretária que o acompanhava barrou, provavelmente para sempre, a brilhante caminhada do senador Ted Kennedy para a Casa Branca – para lembrar apenas o mais escandaloso desses tropeços. Coisa parecida aconteceu com o senador Gary Hart; por divulgar-se uma relação que comprometia o seu casamento, ele nem sequer pôde apresentar-se à Convenção do Partido Democrata, na última eleição americana. ‘

“Na presente campanha, ninguém negará que, em todo o seu desenrolar, houve uma obsessiva preocupação dos responsáveis pelo programa do horário eleitoral gratuito da Frente Brasil Popular de esquadrinhar o passado do candidato Fernando Collor de Mello. Não apenas a sua atividade anterior em cargos públicos, mas sua infância e adolescência, suas relações de família, seus casamentos, suas amizades. Presume-se que tenham divulgado tudo de que dispunham a respeito. ‘

“O adversário vinha agindo de modo diferente. A estratégia dos propagandistas de Collor não incluía intromissão no passado de Luís Inácio Lula da Silva nem como líder sindical nem muito menos remontou aos seus tempos de operário-torneiro, tão insistentemente lembrados pelo candidato do PT.’

“Até que anteontem à noite surgiu nas telas, no horário do PRN, a figura da ex-mulher de Lula, Miriam Cordeiro, acusando o candidato de ter tentado induzi-la a abortar uma criança filha de ambos, para isso oferecendo-lhe dinheiro, e também de alimentar preconceitos contra a raça negra.’

“A primeira reação do público terá sido de choque, a segunda é a discussão do direito de trazer-se a público o que, quase por toda parte, se classificava imediatamente de ‘baixaria’.

“É chocante mesmo, é lamentável que o confronto desça a esse nível, mas nem por isso deve-se deixar de perguntar se é verdadeiro. E se for verdadeiro, cabe indagar se o eleitor deve ou não receber um testemunho que concorre para aprofundar o seu conhecimento sobre aquela personalidade que lhe pede o voto para eleger-se Presidente da República, o mais alto posto da Nação.’

“É de esperar que o debate desta noite não se macule por excessos no confronto democrático, e que se concentre na discussão dos problemas nacionais.

“Mas a acusação está no ar. Houve distorção? Ou aconteceu tal como narra a personagem apresentada no vídeo? Não cabe submeter o caso a inquérito. A sensibilidade do eleitor poderá ajudá-lo a discernir onde está a verdade – e se ela deve influenciar-lhe o voto, domingo próximo, quando estiver consultando apenas a sua consciência.”

Marina Amaral procurou o atual diretor de jornalismo da Rede Globo, sendo informada pela secretária que ele só responde perguntas por escrito. Assim foi feito, seguiram quatro perguntas: 1. se havia chegado ao jornal O Globo, por ocasião das eleições de 1994, a informação de que grandes veículos estavam preparando matéria sobre o filho gerado de um romance entre Fernando Henrique Cardoso e Miriam Dutra; 2. se o jornal discutiu o assunto; 3. se cogitou de também preparar uma matéria a respeito; 4. e se o editorial “O direito de saber” havia sido escrito por ele, Evandro Carlos de Andrade. A resposta veio no dia seguinte, por fax, manuscrita e assinada:

“1. Não chegou ao meu conhecimento. As perguntas 2 e 3 estão prejudicadas.”

“4. Não me recordo – provavelmente não fui eu o autor, uma vez que escrevi poucos editoriais durante minha permanência no Globo.”

No mesmo dia, 20 de março último, Marina Amaral procurou, por telefone, outro diretor de redação, Otávio Frias Filho, da Folha de S. Paulo. Depois de explicar em detalhes a origem da reportagem – do artigo de Palmério Dória à foto interditada -, Marina perguntou a Otávio se a Folha cogitara fazer a matéria em 1994. Resposta:

“- Vou ter muita dificuldade em responder a contento porque a Folha considera que esse não é um assunto de interesse público, é um assunto de ordem afetiva, e a Folha não publica assuntos de ordem afetiva enquanto pelo menos uma das partes interessadas não se manifestar. Essa moça não se manifestou.”

“- Mas e o caso da namorada do Pitta, que vocês publicaram recentemente? Havia interesse público? “

“- A Folha não publica assuntos de ordem afetiva enquanto uma das partes não toma alguma providência jurídica ou não se manifesta publicamente, quando consideramos que o assunto não tem interesse jornalístico. No caso dessa moça que você está citando, não lembro o nome dela…”

“- Marlene Beteguelli, a secretária. E a Marina de Sabrit, que vocês também publicaram, com ela desmentindo…”

“- Pois é. Houve insinuações, mas não publicamos nada até que ela própria deu uma entrevista ao Jornal do Brasil, se deixou fotografar.”

“- Mas a notícia do filho do Fernando Henrique chegou à redação da Folha? Vocês pensaram em investigar, em procurar os dois?”

“- Havia fofocas de redação que circulam há muito tempo, mas não tivemos condições de investigar porque não tínhamos nem condições de afirmar se essas histórias eram verdadeiras.”

“- Posso dizer que a história do filho é verdadeira pelas investigações que fizemos. Inclusive falamos com a moça, que nos aconselhou a procurar a pessoa pública dessa história.”

“- Se você está me dizendo que é verdade, acredito, porque não tenho motivo para duvidar de você.”

“- Independentemente desse fato, você acha que a mídia tem tratado o presidente Fernando Henrique Cardoso com, digamos, condescendência? “

“- Independentemente disso? Sim.”

“- De que forma se manifesta essa condescendência? “

“- Acho que a mídia tem sido de todas as formas condescendente. Quando um presidente tem taxas de popularidade altas, a mídia acaba refletindo essa tendência. Foi assim com o presidente Sarney, com o Collor no primeiro ano de mandato, vem sendo assim com o Fernando Henrique pelo menos até o segundo semestre do ano passado quando suas taxas de popularidade caíram.”

“- A Folha acompanhou essa tendência? “

“- A Folha, salvo melhor juízo em contrário, tem se mantido numa posição mais autônoma, mais inquisitiva, mais incômoda mesmo. A Folha tem uma série de colunistas que manifestam uma posição contrária a essa simpatia da mídia. Essa simpatia é clara, tanto que ele próprio (o presidente) fez uma boutade no episódio dos grampos do BNDES dizendo que a mídia estava até exagerando no apoio. Agora, com relação a esse episódio desse suposto envolvimento de ordem afetiva, não é nossa política investigar. Isso envolve outros casos, há diversos precedentes, mas não consideramos esse um assunto jornalístico, de interesse público. É isso.”

Marina Amaral transcreveu o diálogo telefônico e enviou-o a Otávio, como pedira o jornalista. E acrescentou novas perguntas, que foram respondidas via e-mail pelo diretor de redação da Folha: “

“1. A Folha foi procurada pelo presidente ou por algum de seus assessores com o pedido de não dar ouvido a boatos a respeito do filho com a jornalista Miriam Dutra? “

” Não.”

“2. A Folha foi convidada a participar, juntamente com outros grandes veículos, de uma reunião com o presidente durante a campanha eleitoral de 1994? “

” Não. Embora tenha havido vários encontros jornalísticos entre representantes do jornal e o então candidato, alguns deles, possivelmente, com a participação de jornalistas de outros veículos. “

“3. A Folha sofreu alguma pressão no governo FHC em função de sua posição de independência?”

“Não, exceto queixas e reclamações, aliás freqüentes, de auxiliares do presidente, mas sempre dentro dos limites do que me parece legítimo numa democracia.”

Nesse mesmo e-mail em que dá resposta às perguntas complementares de Marina, Otávio comenta a transcrição do telefonema:

“A transcrição me parece OK, exceto pelo fato de que o discurso oral, quando transposto para o texto, sempre parece truncado e repetitivo. Imagino que você fará um copy para eliminar ou reduzir essa dissonância. “

“Dois detalhes: há uma resposta em que eu digo que ‘Havia fofocas de redação que circulam há muito tempo mas não tivemos condições de investigar porque não tínhamos nem condições de afirmar se essas histórias eram verdadeiras’. Devo ter me expressado mal. Quis dizer que não investigamos por não vermos legitimidade na pauta, conforme dito anteriormente. E que não sabemos sequer se esses fatos são verdadeiros. O porque não tem sentido na frase. “

“Outro detalhe: Sarney desfrutou de grande popularidade enquanto durou o Plano Cruzado. “

“É isso. Um abraço.”

Mylton Severiano também está empenhado na coleta de depoimentos. Marca uma conversa com Mino Carta na redação da Carta Capital, revista da qual Mino é o diretor. Começa com a mesma pergunta feita a todos: por que falam do filho deste e daquele, menos do filho de FHC com Miriam Dutra. Mino faz uma colocação e lembra de um episódio:

“A questão é pertinente. Eu saí da IstoÉ em agosto de 1993. Dois anos antes, o Fernando Henrique me liga na redação: “

‘Olha, Mino, está correndo uma história cabeluda, que enxovalha a mim e a minha família, por favor, se isso chegar aí, não dá nada, não publica não’. Eu disse ‘tá bom’, que esse tipo de coisa não me interessava mesmo. Eu nem sabia o que era.”

E conta a Mylton Severiano que perguntou ao pessoal da redação de IstoÉ, “Mas que história é essa que o Fernando Henrique me liga pra pedir que não publique?” E lhe disseram que vários jornalistas da IstoÉ tinham visto “os dois” no Piantella, nesses restaurantes de Brasília, às vezes em turma, às vezes a sós. E acrescenta:

“Eu, pessoalmente, Mino jornalista, tenho receio de tocar nesses assuntos. Mas, em relação a Pelé, Lula… Jesus Cristo, é legítimo, é pertinente propor a questão. Pelo fato em si. O caso do Lula era diferente. Estava viúvo, solteiro. E o Fernando Henrique é casado.”

Mylton cita o editorial do Globo sobre o direito de saber. Mino diz: “Uma das obrigações da mídia é fiscalizar o poder, inclusive a vida privada, particular. O perfil: tantos anos, é homossexual; se é grosseiro, quero saber. Se espancou a mulher, quero saber. Se dá em cima de mulher fora do casamento, quero saber. Agora, eu, como repórter, não me sinto bem com esse tipo de assunto.”

Mylton pede que Mino explique melhor por que disse ser pertinente a questão que estamos levantando. Resposta:

“Sim, a história do filho do Fernando Henrique você pode até perguntar se é verdade. Mas, sendo verdade, é pertinente querer saber por que não publicam. Como foi possível levantar aquela do Lula? Aquilo foi terrível. Completamente diferente. Ele estava solteiro, viúvo. Saía com a moça e, naturalmente, quando um homem sai com uma mulher, acabam fazendo o que todos sabemos. Ele não queria o filho. Foi uma desgraça. Agora, por que Lula e não Fernando Henrique? Por que Pelé e não Fernando Henrique? Existe? Então, por que não falar? Se é figura pública e dá em cima das mulheres, não sabe se portar. Vai envergonhar o país mais cedo ou mais tarde, se se torna figura representativa do país dele. Eu não estou falando dele, estou falando de qualquer um.”

Mylton lhe diz:

“Mas isto se aplica a ele, depois de tudo o que apuramos e todo mundo sabe.”

“Então…”, falou Mino, rindo irônico.

Depois de falar com Mino Carta, Mylton Severiano ia telefonar para outros dois jornalistas de publicações importantes. Conversas velozes. Primeiro com Celso Kinjô, editor-chefe do Jornal da Tarde, do qual Mino foi o fundador. Celso lhe disse que nunca pensaram em fazer matéria no JT. A posição da “casa” é não tocar em assuntos pessoais.

Uma ocasião um repórter levou uma foto do filho de Orestes Quércia e ela ficou na gaveta. A “casa” é escrupulosa em relação a esse tipo de assunto, não está escrito mas nem merece tratamento editorial. Disse também não lembrar qual foi o tratamento da “casa” com relação a Miriam Cordeiro, em 1989.

Depois, com Marcelo Pontes, alto escalão no Jornal do Brasil em 1994, fazia o “Informe JB”. Trabalha hoje no gabinete do Ministério da Fazenda. Mylton conta:

“- Foi perceptível ao telefone seu desconforto quando anunciei o assunto. Eu havia dito à secretária que falava em nome da Caros Amigos. Mas atendeu logo. Ficou repetindo: ‘94, 94, 94, que que eu fazia no JB? 94, 94, 94…’. Lembrou-se então de que fazia o “Informe”. Mas o jornal fez matéria?

- Mas eu não posso falar pelo jornal. Ouvi boatos – boatos, estou dizendo -, não tinha nenhuma prova. Nem considerei que esse assunto de vida pessoal fosse publicável.

“- Mas nós sabemos que outras publicações foram atrás.”

“- Ah, me parece que o JB publicou algo sim, feito pelo Maklouf. Tá bom? (louco para se livrar de mim)”

“Agradeci, um abraço, desliguei.”

Na penúltima semana de março, Palmério Dória foi ao Rio de Janeiro, tratar de outros assuntos profissionais com um grupo de jornalistas, do qual faz parte um colunista muito importante da imprensa carioca. Era uma sexta-feira, “dia do chamado ‘pescoção’ nos jornalões, quando os colunistas caçam notas a grito”. O colunista queria saber de Palmério se Miriam Dutra “abriu ou não abriu” (sobre a paternidade do menino), dizendo, depois de uma longa conversa, que ia dar uma nota em sua coluna no final de semana. Voltou a ligar mais tarde, perguntando quantos anos a Caros Amigos ia fazer.

Palmério procurou no jornal do sábado, do domingo e da segunda. Nada. Na tarde da própria segunda encontraram-se em mais uma reunião do grupo, à qual o colunista chegou dizendo, na frente de dois outros jornalistas: “Em dez anos de coluna, nunca passei por uma situação como essa!” E contou que alguém do alto escalão do jornal chegou a ele com a nota na mão e disse que ela só poderia sair com autorização do primeiro homem da empresa.

Faltavam poucos nomes para completar a lista de depoimentos de jornalistas, antes de Marina Amaral solicitar a audiência com a “pessoa pública”, com o que encerraríamos a reportagem.

Faltava falar com quem em 1994 dirigia o Diário Popular, de São Paulo, Miranda Jordão; com Ricardo Noblat, do Correio Braziliense; e com o chefe da sucursal da Folha de S. Paulo em Brasília, Josias de Souza.

Mylton Severiano liga para Miranda Jordão, hoje no jornal O Dia, Rio de Janeiro. O diálogo:

“- Alô. “

“- (Me identifico como da Caros Amigos, tudo bem? Tudo bem.) Estou trabalhando numa matéria sobre o filho do Fernando Henrique com a Miriam Dutra… “

“- Filho o quê? “

“- O Tomás Schmidt, filho do Fernando Henrique e da nossa colega Miriam Dutra. “

“- Não estou sabendo de nada. “

“- Bem, nós temos a informação de que o Diário Popular, em 1994, você estava lá, teria feito ou tentou fazer a matéria, através do Cláudio Humberto. “

“- Nunca. Não tínhamos relação alguma com o Cláudio Humberto. “

“- Bem, pode ser uma informação furada, mas você sabe da história, não? “

“- Não, nunca soube de nada. (cortante) “

“- Que interessante. Bom, se você nunca soube, está bem. Muito obrigado.”

Marina Amaral vai a Brasília, já telefonara de São Paulo cinco dias antes à procura de Ana Tavares, assessora da presidência da República. Tinha sido atendida por um dos membros da assessoria, Geraldo Moura. Sem adiantar o assunto, Marina disse que queria marcar uma entrevista com Ana. Geraldo se mostrou surpreso: “Entrevista com ela?” Mas respondeu que provavelmente não haveria problema e que daria um retorno.

Não deu. Assim que chegou em Brasília, no dia 22 de março, Marina localizou o cartório – o Marcelo Ribas, no Edifício Venâncio 2000 – em que fora registrado Tomás. Tinha o nome completo do menino, da mãe e a data e horário do nascimento, que a própria Miriam Dutra dera a João Rocha em Barcelona. Tirou a cópia, que é um documento público, pagando por ela 1,90 real.

Por telefone, depois entrevistou Josias de Souza, diretor da sucursal da Folha em Brasília.

“- Na matéria que estamos fazendo, percebemos que há um tabu referente ao assunto do filho do presidente Fernando Henrique com a jornalista Miriam Dutra. Argumenta-se que o assunto é privado, que não tem interesse jornalístico. Me chamou a atenção que você e o Gilberto Dimenstein tenham tratado disso no livro que escreveram sobre a campanha de 1994 (A História Real – Trama de uma Sucessão, editora Ática-Folha de S. Paulo). O assunto tem interesse jornalístico? “

“- Abordei esse assunto em ocasiões em que me pareceu claro o interesse jornalístico. Uma vez foi na própria Folha, na coluna da página 2, durante a campanha eleitoral de 1998. O PDT havia explorado o fato de forma eleitoreira no site do partido. Aquilo me pareceu jogo sujo de campanha. Fiz, então, uma analogia com outros casos, envolvendo inclusive chefes de Estado, como o Mitterrand. Fiz uma comparação com a cultura jornalística brasileira, a meu ver mais evoluída nessa matéria. Nos Estados Unidos, por exemplo, qualquer bobagem sexual relacionada a presidentes e candidatos é supervalorizada pela mídia. Acho que esse tipo de assunto só deve ser abordado quando há relevância jornalística. Como no caso do PDT, que decerto tentou reeditar procedimento sujo utilizado antes por Collor, na disputa contra o Lula. No livro que escrevi com o Gilberto, o assunto veio à tona porque descobrimos que a dona Ruth Cardoso havia se isolado em Nova York pouco antes de Fernando Henrique decidir se seria ou não candidato à presidência. Um dos motivos que fizeram com que ela se isolasse foi o receio de que esse caso fosse explorado durante a campanha eleitoral. Entendemos que não havia por que evitar o assunto. Decidimos dar a ele o tratamento jornalístico que julgamos adequado. “

“- Mas a Folha diz que não trata de assuntos de ordem privada… “

“- Veja, a posição da Folha é que essas questões têm de ser tratadas à luz do interesse jornalístico. Um bom exemplo é o caso do namoro do Bernardo Cabral e da Zélia, dois ministros de Estado, em que um liberava verba para o outro, ou seja é assunto de interesse público. A vida privada de um político tem relevância se de algum modo passar a interferir na sua atividade como homem público. “

“- Mas e a filha do Maluf, as namoradas do Pitta? “

“- Não há uma fórmula. Há uma linha geral, um princípio a ser observado. A publicação depende da análise de caso a caso. A filha do Lula foi transformada em assunto jornalístico pelo Collor. O tema dos supostos relacionamentos extra-conjugais do Pitta vieram à tona graças ao rompante de Nicéa. “

“- No caso da Miriam Dutra, vocês investigaram, falaram com ela? “

“- Falamos com várias pessoas que tinham relação com o fato. Para nós, era relevante checar a veracidade da história. “

“- E vocês conseguiram apurar? “

“- Isso foi apurado, sim.”

Marina só conseguiria falar com Ricardo Noblat, o último da lista, depois da volta a São Paulo. Por telefone.

“- Estamos fazendo uma reportagem sobre as relações da mídia com o presidente Fernando Henrique Cardoso… “

“- Eu soube. É boa reportagem. Me diz uma coisa, a moça confirmou? “

“- Nós falamos com ela e tentamos falar com o presidente. Você assumiu a direção do Correio em fevereiro de 1994? “

“- É, fevereiro de 94. “

“- E nunca ouviu falar de um filho de Fernando Henrique fora do casamento?”

“- Eu ouvi esse assunto por aí. Depois fiquei sabendo que a Veja tinha ido conversar com o presidente e com a jornalista, apurado nas duas pontas, e que ambos negaram. Aí, como não tinha prova, não tinha por que apurar, tanto que a matéria da Veja não foi publicada. Se você tivesse uma outra prova, poderia ser. Em mesa de bar, jornalista comenta… “

“- Você leu o livro publicado no final de 1994 pelos jornalistas Josias de Souza e Gilberto Dimenstein? “

“- Confesso que não. Por quê? Ali conta? “

“- Conta. Na parte em que comenta que dona Ruth se isolou em Nova York, lembra? “

“- Acho que lembro, sim, o Fernando Henrique foi falar com ela. Mas conta mesmo? Não estou me fazendo de bobo, é que eu não sabia mesmo. Você falou com eles? “

“- Falei com o Josias, ele confirma o que escreveu. “

“- Confirma? E por que a Folha não publicou? “

“- Porque considera assunto de vida privada. Você publicaria? “

“- Mas eles falaram da filha do Maluf, das namoradas do Pitta… Aqui em Brasília, um jornal evita muito entrar na vida pessoal, a não ser que vire um fato supercomentado. A gente não publica nem fitas, aqui temos um código de ética muito rigoroso. Mesmo aquelas fitas grampeadas que todo mundo deu, a gente só deu depois de uns dias para explicar para o leitor ‘está ocorrendo uma crise por causa de umas fitas’… e diz o teor; nós nem publicamos aquelas transcrições que todo mundo publicou. Mas a Folha disse o quê? “

“- Nada muito diferente do que você disse, assunto de vida privada. Você acha que o fato de um presidente ter um filho fora do casamento é um assunto jornalístico? “

“- Mas aí você está fazendo uma afirmação que eu não posso comentar. “

“- Não estou fazendo uma afirmação, estou fazendo uma pergunta. “

“- Não, eu não posso responder isso em tese porque sei de que tese você está partindo. Não posso falar de um fato que eu não apurei, não que esteja duvidando de você, mas aí eu não posso. “

“- Está bom, Noblat, muito obrigada. “

“- Obrigado, eu. Boa noite.” “

Marina não conseguira uma entrevista com Ana Tavares, muito menos uma audiência com o presidente. Eis o esperado mas curioso anticlímax da reportagem, narrado por ela:

“No dia 22 de março, já em Brasília, liguei novamente para Ana Tavares e novamente Geraldo Moura me atendeu. ‘Marina, fui eu que falei com você a outra vez. Você queria conversar com a Ana, né? Infelizmente não vai ser possível porque a agenda dela está uma loucura, ela nem tem vindo aqui, porque está preparando uma viagem do presidente’. ‘Mas nem por telefone, dez minutinhos?’ ‘Não, está impossível mesmo. Mas você pode falar comigo, eu também faço parte da assessoria da presidência’.

“Explico então que estamos dando uma matéria que fala das relações do presidente Fernando Henrique com a mídia analisando o episódio do filho dele com a jornalista da Globo, Miriam Dutra, e acrescento que estou cumprindo minha obrigação como jornalista, já que a própria Miriam havia nos dito que procurássemos a pessoa pública dessa história. E explico: ‘É por isso que preferia falar com a Ana Tavares pessoalmente, é um assunto delicado’. Ele responde, efusivo: ‘Não, nem tem problema, essa história surge periodicamente desde 1983…’ Pondero que em 1983 o garoto nem tinha nascido. Ele corrige: ‘Não, 1993, desde que entrei aqui. Nós temos uma orientação sobre isso, mas nesse caso vou falar com o presidente e depois telefono para você’, diz, simpático.

“Uma hora depois ele me liga, o tom de voz completamente mudado. Bastante seco, diz: ‘Nós desconhecemos esse assunto’. Pergunto se essa é a resposta da assessoria ou do presidente. Ele: ‘Não se pode falar com o presidente sobre esses assuntos através da assessoria porque a assessoria só trata de assuntos institucionais da presidência’. Pergunto então com quem devo falar para que minha pergunta chegue ao presidente. A resposta: ‘Cabe a você, como repórter, encontrar uma maneira de falar com o presidente. Até logo’.”

Caros Amigos, abril de 2000.

Romper com o velho hábito da obediência

2009 Novembro 12
por menosdetudo

“Romper com o velho hábito da obediência. Em vez de obedecer à história, inventá-la. Ser capaz de imaginar o futuro e não simplesmente aceitá-lo. Para isso é preciso revoltar-se contra a horrenda herança imperial, romper com essa cultura de impotência que diz que você é incapaz de fazer, por isso tem que comprar feito, que diz que você é incapaz de mudar, que aquele que nasceu, como nasceu vai morrer. Porque dessa forma não temos nenhuma possibilidade de inventar a vida. A cultura da impotência te ensina a não vencer com sua própria cabeça, a não caminhar com suas próprias pernas e a não sentir com seu próprio coração. Eu penso que é imprescindível vencer isso para poder gerar uma nova realidade.”

Ler esse tipo de coisa é o que me faz não desistir da vida, dos sonhos, dos ideais. Eduardo Galeano deu essa linda resposta a jornalista Fania Rodrigues, que entrevistou o escritor para a revista Caros Amigos que está nas bancas, e ela o questionava sobre o que falta para a América Latina ser completamente livre.

Sim, precisamos de liberdade para criar e agir, nos livrar das amarras, romper barreiras. E principalmente continuar acreditando que somos nós mesmos que fazemos nossa realidade.

 

Mostra: ‘Férias cinematográficas’ fazem a cabeça dos cinéfilos *

2009 Novembro 11
por menosdetudo

A cada ano, amantes do cinema fazem de tudo para juntar dinheiro e não perder nada da Mostra Internacional de Cinema

Pâmela Simas de Rodrigues tem 22 anos e é moradora da cidade de Cordeirópolis, interior do estado de São Paulo. Desde que se formou no colégio, se virou fazendo “bicos” aqui e ali. Sua vontade é ser atriz, e por isso dedica a maior parte do tempo ao ‘Pingo d´Água’, grupo de teatro ao qual pertence.

E foi por causa do teatro que a jovem descobriu outra paixão. Em 2005, o diretor Roberto Vignati foi a Cordeirópolis para desenvolver uma atividade com o grupo, “a proposta dele era dar uma formação cultural diferenciada para os jovens e nos incentivou a buscar novas referências cinematográficas, entre uma conversa e outra ele sempre citava a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo”, conta Pâmela.

Encorajada pelo professor Pâmela rumou para a capital, e em 2006 participou pela primeira vez da Mostra, assistindo 32 filmes. Desde então é frequentadora assídua do evento, esse ano é a sua quarta participação.

“A Mostra apura o gosto pelo cinema, por isso sempre dou um jeito de ir”, diz a jovem. Como estava sem emprego fixo, desde fevereiro começou a saga para juntar dinheiro. Trabalhou de telefonista, fez algumas apresentações com seu grupo, e no saldo total conseguiu R$ 800. Pâmela conta sorrindo, “quando perguntavam sobre o que eu queria fazer nesse ano, eu dizia que o meu único plano era ir para a Mostra.”

Acumulando experiência nessa maratona cinematográfica, concluiu que é possível assistir cerca de seis filmes por dia. Nos anos anteriores tinha o ingresso integral, que dava acesso para todos os filmes, e na Mostra passada conseguiu assistir 52 produções. Esse ano, como assumiu alguns compromissos com o grupo de teatro, perdeu quatro dias de evento e por isso comprou o ingresso que dá direito a 40 filmes, por R$ 285.

“Minha mãe fica louca comigo, pergunta como eu tenho coragem de gastar quase R$ 300 em filme. Eu sei que é caro, mas vale a pena, tem que ir uma vez para ver como é bom”, justifica Pâmela. Sobre a rotina nos 15 dias de Mostra diz que é uma correria de uma sala de cinema para outra, “estou hospedada na casa de um amigo, saio de lá às 9 horas e volto lá pela 1 hora da manhã. Tem dias que não consigo nem almoçar e, para economizar, como um miojo a noite”.

Mas a jovem lembra que começa a viver o evento bem antes dele começar. Para decidir a seleção dos filmes que irá assistir, fica ligada nas críticas que saem nos jornais sobre as produções que já foram exibidas em outros festivais de cinema, além de selecionar filmes pelos nomes dos diretores. “Como descubro muito diretores novos e eles se preparam para lançar os filmes durante a Mostra, coloco essas produções no meu roteiro.”

E ela ainda revela um ponto interessante, “esse período é ótimo para fazer amigos, conheço muita gente nas filas e acabo encontrando essas pessoas quase todos os dias, costumo dizer que tenho meus ‘amigos de Mostra’, como uma senhora do Rio de Janeiro que eu encontro aqui em São Paulo todo o ano”. Mas mesmo proporcionando essa nova sociabilidade, Pâmela frisa que a Mostra é um evento solitário, “sempre vou sozinha, eu prefiro, assim não corro o risco de ver um filme que eu não gosto por causa de outra pessoa, é uma seleção muito pessoal”.

(*) matéria publicada no www.redetv.com.br

A Uniban parece a nova sede da TFP

2009 Novembro 9
por menosdetudo

A história da menina que foi expulsa da Uniban por usar um vestido curto é um super absurdo. Vi que alguma coisa tinha rolado na semana passada, mas parei pra prestar atenção direito no que aconteceu só hoje.

A cena da menina saindo escoltada da universidade, e aquele monte de gente gritando e ofendendo de todas as formas me lembrou uma execução em praça pública. Aquelas coisas bem medievais mesmo, o povão implorando para a humilhação e morte daquele que segundo a maioria infringiu as regras.

Outra cena decorrente é a do apedrejamento da mulher traidora, colocada frente a frente com todos aqueles que acham que tem o direito de julgar o outro e a matam por uma lei divina.

Aquelas pessoas gritando desaforos pareciam cães enlouquecidos, retrato do conservadorismo dessa geração totalmente sedada pelo sistema, sem senso crítico, se movendo como rebanho. Filhos do machismo, herança maldita.

Para um país que a tanto tempo vem tentando se livrar das amarras do preconceito, esse epsódio é mais uma página que envergonha.  Um tapa na cara de quem luta pelo fim da intolerânica.

Mais impressionante ainda é a atitude da universidade de expulsar a aluna em favor da defesa da moral e dos bons costumes, só faltou chamar a TFP – Tradição Família e Propriedade –  para fazer coro a decisão. Nunca é demais lembrar que com a desculpa de salvar o Brasil e preservar os costumes a ditadura militar assolou o país por mais de 20 anos.

 

 

O saldo final

2009 Novembro 6

A 33ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo acabou e o meu saldo de filmes não foi nada satisfatório. Com esse trabalho que não me deixa ter vida social, consegui assistir só quatro filmes, ‘A Obra de Arte’, ‘Roman Polaski’, ‘Os Famosos e os Duendes da Morte’ e ‘Pixo’. 

Vi os que eu queria, mas muitos ficaram na vontade, como ’Voluntária Sexual’, vencedor da competição dos novos diretores.

‘Pixo’ é muito bom, João Wainer mandou muito bem ao trazer o assunto para a discussão, mas quero dedicar esse post a ‘Os Famosos e os Duendes da Morte’, de Esmir Filho.

Fui ver o filme muito cética. Como todo mundo está fazendo muito alarde em cima de Esmir Filho, colocando seu nome entre os destaques do cinema nacional, meu senso crítico ficou acirrado e tentei me manter o mais afastada possível. Mas logo nas primeiras cenas foi impossível não me impressionar com a beleza das cores e da trilha sonora.

A história demora um pouco para engatar, mas com o seu desenrolar os personagens tornan-se tão grandes que até hipnotizam. Assuntos difíceis, que mexem com o íntimo e relembram conflitos tomam conta.  E até mesmo na hora de tratar sobre um tema tão delicado como o suicídio, ele faz com muita poesia.

Gostei muito, e sai emocionada do cinema.

Eu acho que vai ser nós dois até o final

2009 Novembro 3
por menosdetudo

Liberdade

Marcelo Camelo

Perceber aquilo que se tem de bom no viver é um dom

Daqui não

Eu vivo a vida na ilusão

Entre o chão e os ares

Vou sonhando em outros ares, vou

Fingindo ser o que eu já sou

Fingindo ser o que eu já sou

Mesmo sem me libertar eu vou

É Deus, parece que vai ser nós dois até o final

Eu vou ver o jogo se realizar de um lugar seguro

De que vale ser aqui

De que vale ser aqui

Onde a vida é de sonhar?

Liberdade

 

Ser feminista

2009 Outubro 29
por menosdetudo

beauvoir

Antes de tudo é preciso diferenciar feminino de feminismo.

Feminino são os trejeitos, características que criam para diferençar o que é da mulher, a chamada sutileza ou o que seja semelhante a isso.

Feminismo é posicionamento político, é ser contra a cultura machista que nos deixaram como herança, é entender que a mulher é colocada em posição inferior em todas as esferas sociais, seja no âmbito do lar, seja no âmbito do mercado de trabalho, seja nos olhares que recebem na rua.

Por isso não pode existir feminismo velado, pseudo revolta com uma situação, mas ao mesmo tempo falta de coragem de levantar a bandeira e denunciar que a subjulgação ainda é fato. Quando não damos a cara para bater estamos reproduzindo conhecimento, reafirmando o status-quo.

Em uma entrevista para o jornalista John Gerassi, em 1976, época que “O Segundo Sexo” compeltou 25 anos, Simone de Beauvoir deu a melhor definição de feminismo que eu já vi. Depois disso não é preciso falar mais nada. 

“Uma feminista, quer ela se autodenomine esquerdista ou não, é uma esquerdista por definição. Ela está lutando por uma igualdade plena, pelo direito de ser tão importante, tão relevante, quanto qualquer homem. Por isso, incorporada em sua revolta pela igualdade de gêneros está a reivindicação pela igualdade de classes. Numa sociedade em que o homem pode ser a mãe, em que, vamos dizer, para colocar o argumento em termos de valores para que fique claro, a assim chamada “intuição feminina” é tão importante quanto o “conhecimento masculino” — para usar a linguagem corrente, apesar de absurda — em que ser gentil ou delicado é melhor do que ser durão; em outras palavras, em uma sociedade na qual a experiência de cada pessoa é equivalente a qualquer outra, você já estabeleceu automaticamente a igualdade, o que significa igualdade econômica e política e muito mais. Dessa forma, a luta de sexos inclui a luta de classes, mas a luta de classes não inclui a luta de sexos. As feministas são, portanto, esquerdistas genuínas. De fato, elas estão à esquerda do que nós chamamos tradicionalmente de esquerda política”

O novo samba carioca

2009 Outubro 25
por menosdetudo

casuarina690

Cinco cariocas da gema, carentes da renovação e dos ritmos tradicioanais da cultura popular, formaram o grupo Casuarina e desde então Daniel Montes, João Cavalcanti, filho do cantor Lenine, João Fernando e Rafael Freire passaram a agitar a noite do bairro boêmio da Lapa com rodas de choro e samba, mesclando novas músicas com canções já eternizadas.

Com oito anos de carreira, o grupo chega ao seu terceiro CD e primeiro DVD, “MTV Apresenta: Casuarina”, lançado no mês de setembro. Em uma rápida passagem por São Paulo, para fazer o show de lançamento na cidade, os meninos responderam com exclusividade às perguntas do RedeTVi. Confira abaixo:

Como começou o Casuarina?

Casuarina: O Casuarina começou em 2001, em um curso de música da Uni-Rio, no Rio de Janeiro. Todos estávamos ouvindo muito samba na época e resolvemos começar um projeto onde pudéssemos cantar e tocar as músicas e os compositores que admirávamos. De lá partimos para a noite, que é nossa principal escola.

Quais são as principais influências do grupo?

Casuarina: É claro que o samba é a grande referência, portanto, grandes sambistas como Cartola, Nelson Cavaquinho, Zé Ketti, Paulinho da Viola, Arlindo Cruz, entre tantos outros, são nossas principais influências. Mas no Casuarina cada um traz também uma bagagem fora do mundo do samba, como o rock, soul, funk, jazz, sem nenhum tipo de preconceito.

Nos últimos tempos o samba saiu da playlist dos jovens. Acreditam que ao gravar o “MTV Apresenta: Casuarina”, podem se aproximar mais desse público?

Casuarina: Acreditamos que sim. No início de nossa carreira, quem frequentava as casas em que tocávamos era um público de mais idade, mas ao longo do tempo cada vez mais jovens apareceram nos nossos shows – e na Lapa como um todo. A renovação do samba tem atraído pessoas que gostam de descobrir coisas novas.

O que acham da cena atual da música brasileira?

Casuarina: Tem muita coisa boa por aí, não só no samba, mas em vários estilos de música. O mais importante é que a grande maioria dos novos artistas está preocupada em compor e isso é fundamental. Com a ajuda da internet temos condições de conhecer o trabalho de artistas dos quatro cantos do país e vemos muitos grupos excelentes surgindo fora do eixo Rio-São Paulo. Gostamos muito de nomes como Roberta Sá, Fabiana Cozza, Mariana Aydar, Moyséis Marques, Quinteto em Branco e Preto, Galocantô etc.

Vocês são considerados a nova geração do samba carioca. Que tipo de responsabilidade isso traz para o grupo?

Casuarina: O mais importante disso tudo é que além de nós, há muitos outros artistas de samba que apareceram na Lapa nos últimos 10 anos. Fazemos sim parte de uma geração que inclui muitos outros nomes, como a Teresa Cristina e Grupo Semente, Anjos da Lua, Moyséis Marques, Sururu na Roda, Edu Krieger. Se o Casuarina hoje está com um destaque maior na mídia a responsabilidade é de trazer a atenção também pra esses outros nomes, pois todos eles têm importância fundamental nesse movimento.

 Qual o significado da Lapa carioca para a carreira do grupo?

Casuarina: A Lapa sempre foi o nosso reduto. Foi lá que começamos a nos apresentar e amadurecemos como banda e músicos. É um espaço muito democrático que permite a interação de diferentes públicos e estilos.

O que acham da velha rivalidade entre o samba carioca e o samba paulista.

Casuarina: De forma nenhuma. Não fazemos coro a qualquer distinção ou rivalidade no samba, pois o samba, seja paulista, carioca, “de raiz” ou romântico, é sempre o mesmo samba, com o enorme leque de possibilidades que tem, serve para que cada vez mais gente possa gostar e escutar.

Vocês estão chegando em um momento na carreira que estão ganhando espaço na mídia. Mas como era antes, tiveram dificuldade para divulgar o trabalho?

Casuarina: Como todo início de trabalho tivemos que “quebrar algumas pedras”. Já tocamos em muitas casas vazias, mas isso nunca foi problema. Sempre acreditamos e trabalhamos muito, até que as coisas começaram a acontecer naturalmente. A mídia só olha para onde está rolando um movimento, então cabe ao artista fazer acontecer.

Falta apoio da grande mídia para os novos artistas?

Casuarina: Não é papel da mídia apoiar ninguém, a mídia nada mais é do que um recorte do que está mais em evidência. É claro que todos gostaríamos que o espaço precioso dos veículos de comunicação fosse mais democrático, mais bem distribuído, para que contemplasse mais manifestações culturais de todo o Brasil. Com a internet e com a pulverização da informação essa revolução já está em curso.

Gostam mais de cantar músicas já consagradas ou composições próprias?

Casuarina: Gostamos e temos o costume de cantar ambos, como pode ser conferido nos CDs que gravamos. O primeiro, só de releituras; o segundo, em sua maioria autoral, e mesmo as regravações “soam” como inéditas, uma vez que não são músicas conhecidas do grande público; e o terceiro, a compilação disso, autorais e regravações, um registro fiel do nosso show. Mas é claro que nos causa um enorme prazer ver o público cantando nossas músicas.

O fato do João Cavalcanti ser filho do Lenine ajuda ou prejudica a trajetória do grupo?

Casuarina: Certamente mais ajuda do que atrapalha. A gente tem a oportunidade de ter sempre por perto um dos artistas que mais nos influenciam. Mas é claro que há a inevitável comparação, o que acaba sendo uma pressão a mais.

Que mensagem vocês deixam para o pessoal que está começando na música?

Casuarina: Persistam. Sigam em frente e não desistam diante dos obstáculos que certamente aparecerão.

*entrevista que fiz e foi publicada no www.redetv.com.br

33ª Mostra de Cinema de São Paulo

2009 Outubro 23
por menosdetudo

mostra

Os 15 dias mais esperados pelos cinéfilos de plantão finalmente chegaram! De hoje até o dia 5 de novembro, São Paulo vai respirar cinema e ser palco do que melhor foi produzido na sétima arte durante o último ano.

A Mostra definitivamente muda o ritmo da cidade. Aulas em algumas faculdades são canceladas, pessoas se organizam para tirar férias nesse período e sessões ás 14:00 ficam completamente lotadas. Sem contar a ansiedade e corre-corre de uma sala de cinema para outra, um espetáculo a parte!

Para aqueles que não vão conseguir burlar o trabalho e passar o dia no cinema – infelizmente eu estou incluida nesse grupo – o que resta é se organizar e dar prioridade para alguns filmes.

Dentro da Mostra competitiva dou destaque para: “A Obra de Arte”, de Marcos Ribeiro, que conta o processo de criação de sete dos principais artistas plásticos brasileiros. “Ponto de Virada”, de Frank Mora, onde pessoas são convidadas para falar sobre o dia que mudaram suas vidas. E “Pixo”, documentário de João Wainer que trás a seguinte reflexão, pixação é arte ou crime?

Mesmo fora da competição o filme vencedor do último Festival de Cinema de Rio promete fazer barulho. “Os Famosos e os Duendes da Morte”, de Esmir Filho (aquele que fez o “Tapa na Pantera”) deve ser um dos filmes mais procurados.

Ao acompanhar a Mostra também tento dar prioridade aos filmes que não vão entrar no circuito comercial, mas esse ano o filme que mais quero ver é “Abraços Partidos”, do nada mais, nada menos, que Pedro Almodovar….rei!

Agora é questão de montar a agenda e desfalcar o bolso!