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Matérias

Top 5: destaques imperdíveis da 21ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo

Os fãs de literatura terão uma semana agitada pela frente. Começa nesta sexta-feira (13), no Pavilhão do Anhembi, a 21ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, que divide sua temática entre a homenagem aos escritores Monteiro Lobato e Clarice Lispector, e os debates sobre Lusofonia e livro digital.

Com uma programação recheada – são cerca de mil e cem horas de atividades programadas para esta edição – e escritores de diversas partes do mundo como convidados, o evento este ano se aproxima do formato proposto pela FLIP. Alguns convidados, inclusive, estiveram em Paraty no começo de agosto, como é o caso da escritora iraniana Azar Nafisi. O nome mais esperado do evento, no entanto, é o de Dacre Stocker, sobrinho-bisneto do escritor Bram Stoker, o responsável por dar contornos ao vampiro Drácula tal como o conhecemos hoje. Ao lado do cineasta Zé do Caixão, ele estará em um debate sobre Vampirismo no salão principal.

Diante de tantas possibilidades, o Colherada listou alguns destaques entre os eventos propostos por essa Bienal para você não se perder em meio aos corredores repletos de lançamentos que atiçam os ávidos por livros. Boa leitura e divirta-se!

Dacre Stoker – “A Eternidade de Drácula”
Quando: sexta-feira (13), às 19h
O fato de ser sobrinho-bisneto de Bram Stoker faz do autor o centro das atenções. Sua ousadia em dar continuidade à obra-mãe que norteou todo o universo do vampirismo na literatura (e até nas telas de cinema) é um feito arriscado. Mesmo assim, Dacre Stocker, ao lado do historiador Ian Holt, encarregou-se do desafio e “Drácula, o Morto-Vivo” chegou as livrarias do mundo em 2010 como uma sequência ao clássico de 1897. Se veio se somar à vampiromania desencadeada por “Crepúsculo” ainda não se sabe, mas alcançar o mesmo ineditismo de seu antepassado não será fácil.

——— atualizado em 14 de agosto: Dacre Stocker cancelou sua presença na Bienal do Livro no último minuto e acabou não vindo para a mesa que estava escalado e nem para o lançamento de seu livro no Brasil. ————

Azar Nafisi – “Mulheres entre Aiatolás”

Quando: sábado (14), às 13h
Em meio à polêmica envolvendo a iraniana Sakineh Mohammadi Ashtiani, condenada ao apedrejamento como pena por ter cometido adultério – a escritora (também iraniana), Azar Nafisi fala sobre a condição da mulher no Irã. Considerada persona non grata do governo do presidente Ahmadinejad, a professora de literatura, expulsa do país por se recusar a usar o véu na universidade que dava aulas, relata no livro “Lendo Lolita em Teerã” a experiência de ler “Lolita”, obra de Vladimir Nabokov proibida no Irã, em sessões secretas com suas alunas.

Benjamim Moser – “Clarice Lispector: Decifrações da Esfinge”
Quando: sábado (14), às 15h
Um norte-americano publica a mais recente biografia de uma escritora ucraniana, radicada no Brasil, que se tornou uma das maiores de nossa literatura. É com ares de globalização que Benjamim Moser vem à Bienal para contar como foi o seu trabalho de pesquisa e realização da biografia de Clarice Lispector. Fã de “A Hora da Estrela” e da literatura brasileira em geral – o que o fez aprender a falar português corretamente, Moser diz que com “Clarice” quer apresentar para todo o mundo a obra da escritora.

John Boyne – “Poderes da Fábula”

Quando: segunda-Feira (16), às 13h
O filósofo Walter Benjamim afirmou, no começo dos anos 30 que a narrativa estava morendo em decorrência das formas modernas da escrita, como o romance e a informação jornalística. Não é nisso, porém, que John Boyne parece acreditar. O autor do best-seller “O Menino do Pijama Listrado”, adaptado para o cinema em 2008, lança seu novo livro, “O Palácio de Inverno”, ainda este ano no mercado brasileiro. Na Bienal, ele participará de um debate ao lado de Jostein Gaarder, escritor de “O Mundo de Sofia”. O tema:  como se dá a compreensão do mundo através da narrativa.

Milton Hatoum – “Brasil, Brazil”
Quando: terça-Feira (17), às 17h
O brasileiro Milton Hatoum é um devorador de prêmios Jabuti. Recebeu o reconhecimento em seus três primeiros livros – “Relato de um Certo Oriente”, “Dois Irmãos” e “Cinzas do Norte”. Em suas obras, costuma fazer referências biográficas explorando elementos da cultura da Amazônia, região em que nasceu, e da sua descendência libanesa. Junto com outros autores, Hatoum discute na Bienal imagem que a literatura brasileira tem no exterior.

Matéria publicada no site Colherada Cultural (www.colheradacultural.com.br) no dia 13/08/2010

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RAUL PARA TODAS AS IDADES


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O poder das letras de Raul Seixas e o vínculo afetivo com sua obra mantêm a fidelidade de antigos fãs e conquista jovens de novas gerações

O conflito entre gerações é um problema presente em quase todos os lares. O filho jovem se sente incompreendido quando pedem para que ele abaixe o som altíssimo que vem do quarto, mas ao mesmo tempo critica a música careta que escuta no carro dos pais.

Felizmente, a família Moraes não vive essa situação. Além dos lindos olhos verdes, Walter Rogério Moraes e Bruna Almeida Moraes, pai e filha, têm em comum o amor pela obra de Raul Seixas. Difícil é saber quem fala com mais animação sobre o cantor.

Walter, hoje com 44 anos, lembra que quando era menino via o cantor na televisão, e em 1974 começou a gostar do que Raul representava. “Nessa época Raul Seixas foi exilado do país e se encontrou com John Lennon. Com isso, comecei a gostar ainda mais dele. Ele é a própria sociedade alternativa”, conta.

Anos mais tarde, com Raul já de volta ao Brasil, Walter e seus amigos acompanhavam os shows do ídolo, como um que aconteceu no Clube Aramaçan, em Santo André, ao qual o cantor não compareceu por conta de uma crise da pancreatite provocada pelo alcoolismo.

“Comecei a ouvir Raul Seixas primeiro pela sua música, mas depois fui me envolvendo com a parte psicológica das letras. Ele era a revolução de comportamento”, conta Walter. O fã acredita que o cantor era mal interpretado pela mídia da época, que o taxava como drogado, e não procurava entender sua história de vida.

Uma das lembranças mais fortes que tem é do dia da morte do cantor. Depois de ouvir comentários no trabalho, Walter foi para casa e confirmou a notícia com a mãe: Raul Seixas estava morto. Para prestar a última homenagem ao ídolo, ele e seus amigos foram até o Palácio das Convenções, no Anhembi, para participar do velório.

De pai para filha

Os ingressos dos shows, recortes de jornais e letras de músicas formam o conteúdo da pasta que hoje Bruna carrega como tesouro. “Desde que eu me lembro por gente tem Raul na minha vida. Essa é a minha lembrança de infância, e por mais que eu não entendesse o que as letras diziam, eu adorava o ritmo”, diz a jovem de 18 anos.

Bruna assume que seu pai foi a principal influência no seu gosto pelo músico, mesmo sendo da geração pós-Raulzito. Filiada ao fã clube oficial, acompanha os eventos que acontecem em homenagem ao maluco beleza, como o tributo “Toca Raul” que aconteceu na última Virada Cultural em São Paulo.

A jovem acredita que a melhor definição dos fãs de Raul Seixas foi feita pelo compositor Zeca Baleiro em “Só toca Raul”, música em resposta a todos os famosos pedidos de “toca Raul” que recebe em seus shows. Um dos trechos da letra, diz: “jovens, velhos e crianças, malucos e caretas, parece uma seita”.

“Os fãs de Raul são assim, não tem idade. É diferente gostar de Raul Seixas e gostar de outros cantores”, diz Bruna. Afinal, “tanto que se fala de um “raulseixismo”, e os outros artistas não têm um ismo próprio”, completa.

O pai concorda: “Raul Seixas é contemporâneo, suas letras continuam sendo atuais, e é por isso que ele tem fãs em todas as idades”, explica Walter.

A filha confessa que gostaria de ter nascido há mais de 40 anos atrás. O pai diz que o triste dos 20 anos sem Raul é não poder ver seu ídolo ao vivo, mas destaca o fato de que hoje existe muito mais acesso às músicas dele do que antes, já que na época da ditadura militar muitas músicas foram censuradas, como “Rock das Aranhas” e “Mosca na Sopa”.

Na quase uma hora de conversa com pai e filha vestidos de camisetas, bandanas e broches do Raul Seixas, os 26 anos de diferença de idade pareciam não existir.

De patricinha a maluco beleza

Em meio à tumultuada Avenida Brigadeiro Faria Lima, em São Paulo, está localizado o consultório de psicologia de Zelinda Orlandi Hypólito. Logo ao entrar percebe-se o ambiente nada convencional. Na ante-sala, muitas fotos penduradas na parede. Entre elas, uma ilustração de Raul Seixas segurando a “chave do portal”. Na sala principal, símbolos místicos e esotéricos compõem a decoração.

Zelinda, uma jovem senhora de 60 anos, trabalha com terapia de regressão, é fundadora do Imagick, instituto de pesquisas psíquicas; e uma fã-seguidora de Raul Seixas muito interessante. Logo no início ela avisa, “minha história é uma loucura.”

No início dos anos 1970, Zelinda fazia faculdade de psicologia, e seu marido ganhou de presente o disco Ouro de Tolo, “que estava na moda naquela época. Mas como eu tocava piano e cantava música clássica, nem liguei”, diz.

Por conta de sua criação tradicional, a psicóloga não tinha ligação com música popular. Zelinda era do tempo que “moça de bem estudava em colégio de freira e tinha que saber só dos clássicos”. Assim, sempre deixou passar as oportunidades de ir aos shows e ouvir as músicas de Raul.

Mas em 1989 mudanças começaram a acontecer na vida da psicóloga. Com o esoterismo presente em sua vida desde criança, Zelinda via-se perseguida pelo número seis em todos os lugares que ia. Nessa mesma época, ganhou de presente um livro de Paulo Coelho, que citava logo nas primeiras páginas o nome de Raul Seixas. Depois de ter comentado isso com um paciente, ele lhe trouxe de presente uma fita com as músicas do cantor.

“Quando eu comecei a escutar as músicas aconteceu uma coisa estranha. Parecia que eu conseguia entender tudo o que ele estava querendo dizer nas entrelinhas, as verdades em relação a novos modos de vida que ele trazia”, conta, emocionada. Desde então, Zelinda colocou uma meta em sua vida: conhecer Raul Seixas e saber o que ele tinha para falar.

Quando ficou sabendo da existência do fã-clube Raul Mania, na Galeria do Rock, em São Paulo, Zelinda foi até o local. Chegando lá, uma coincidência: a loja em que ficava a sede do fã clube era de propriedade de sua família.

No dia seguinte, decidiu que depois de atender os pacientes da parte da manhã, dedicaria toda a sua tarde para ligar para os contatos que tinha feito, e enfim conhecer Raul. Só que ao chegar em casa veio a notícia pelo rádio, Raul Seixas tinha morrido as cinco horas da manhã.

“Fiquei arrasada. Eu estava envolvida emocionalmente e psicologicamente com toda essa história, a fim de adotar todos os ideais disseminados por ele”, lamenta. Mas a morte de Raul não fez Zelinda cessar sua busca. Ela resolveu ir atrás das pessoas que conviveram com seu novo “guru”.

Aos poucos, a psicóloga foi tornando-se amiga de Luciane Alves, biógrafa do cantor; de Sylvio Passos, presidente do Raul Rock Clube; de José Roberto Romeiro Abraão, advogado e mentor espiritual de Raul Seixas; e de Dona Eugênia, sua mãe. “Essas pessoas mudaram minha vida, me apresentaram um mundo que eu não conhecia, sem etiqueta, sem costumes. Há 20 anos, eu era uma patricinha. Mas tudo o que eu vivi de diferente na minha vida foi por causa do Raul Seixas”, revela.

A mulher acredita que a obra de Raul atinge todas as idades e classes sociais. “Uma vez eu estava voltando de São Tomé e dei carona pra um menino que morava na roça. Ele veio até São Paulo cantando Raul. Outra vez recebi um italiano muito rico em meu consultório que também era fã. Eu não duvido que cada vez mais os jovens vão gostar dele, porque coisa boa fica eternizada”, termina.

Como toda fiel “raulseixista”, Zelinda passou a ter uma relação íntima com a cidade de São Tomé das Letras, em Minas Gerais, e no ano de 1995 construiu a pousada Cidade das Estrelas, em homenagem à Sociedade Alternativa que Raul sonhava em construir.

Matéria publicada na edição especial Caros Amigos – 20 anos sem Raul

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AS NOVAS VOZES DO BRASIL


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Intérpretes e compositoras, a nova geração de cantoras brasileiras quer fazer música boa com originalidade

No país de Elizete, Clara, Bethania e Gal, é muita responsabilidade arriscar-se a ser cantora. Basta uma menina bonita e afinada emplacar uma ou duas músicas no rádio que já vem a especulação da mídia: “Será que ela é a nova Elis?”. Mas, para a felicidade dos fãs de música brasileira, a nova geração de cantoras, livres da pressão da decadente indústria fonográfica, só quer cantar com o coração.

“Existe um bordão quando se fala em música brasileira que é ‘o Brasil é um país de cantoras’, e é mesmo, desde que começamos a ouvir música existe intérpretes femininas, como Ademilde Fonseca, a primeira mulher a cantar choro”, conta Patrícia Palumbo, jornalista que há vinte anos dedica seu trabalho à música brasileira.

Seria impossível colocar neste espaço da Caros Amigos todos os nomes daquelas que estão preocupadas em fazer MPB de qualidade, entre elas Bruna Caram, Karina Buhr e Mariana Aydar, que aparecem aqui para ilustrar o que essa mulherada – de todo o País – anda fazendo.

Uma coisa é importante destacar, a escolha desses nomes específicos não implica em uma superioridade musical delas em relação a tantas cantoras que estão por ai, mas são as intérpretes e compositoras que nos últimos meses andaram tocando nos computadores da nossa redação.

De trovadora a mais tocada na rádio

Bruna Caram (www.myspace.com/brunacaram) tem só 23 anos, mas já soma 14 de carreira. Nascida em Avaré, interior de São Paulo, mas criada na capital paulista, é sobrinha de Mayda Novaes, criadora dos Trovadores Urbanos. “Minha família é muito musical, minha avó foi cantora de rádio, meu avô é violonista, todo mundo toca piano e canta. Quando minha tia criou os Trovadores Urbanos as crianças ficaram encantadas, e pela insistência ela acabou montando os Trovadores Mirins quando eu tinha nove anos”, recorda Bruna.

Aos 15 anos passou para o grupo principal e dele tirou lições musicais importantes, como ter jogo de cintura, saber improvisar e cantar olhando nos olhos das pessoas. “Mas uma coisa me incomodava na serenata, como cantávamos uma música atrás da outra não dava tempo de se dedicar inteiramente na interpretação de uma canção, e nessa época eu já tinha consciência de que queria cantar sozinha.”

Depois de três anos no grupo, Bruna opta por dedicar-se aos estudos, queria entrar para a faculdade de música, e como um “presente do destino” seu CD demo caiu nas mãos de Otávio Toledo, um compositor em busca de uma cantora.

Dessa parceria nasceu o disco Essa Menina, de 2006, que colocou a faixa “Palavras do Coração” entre as dez músicas mais tocadas na rádio Nova Brasil FM, especializada em música brasileira.

Bruna diz que tudo foi uma surpresa, que pela dificuldade de ganhar espaço no mundo da música não esperava que o projeto crescesse tanto. Com a experiência do primeiro disco tomou gosto por gravar músicas inéditas, “quando escuto alguém na rua cantando “Palavras do Coração” sei que aquela pessoa só conhece a música porque eu gravei, por isso que quis trazer composições inéditas no segundo CD”, diz.

Das 12 faixas que compõe Feriado Pessoal, disco lançado no começo desse ano, três são de nomes como Lô Borges, Caetano Veloso, e Guilherme Arantes, mas a maioria é de compositores desconhecidos, uma das justificativas que Bruna dá á essa escolha é pelo fato de que hoje em dia existem compositores jovens que não ficam atrás dos grandes nomes.

Entre as inéditas está “Feriado Pessoal”, letra da própria Bruna. “Acaba sendo natural compor quando está no meio, eu ainda não me considero uma compositora, sou muito mais intérprete, mas os músicos acabaram gostando e resolvemos colocar no disco. Pra mim foi importante porque foi mais uma maneira de dizer como esse segundo CD tem a minha cara e como eu participei de toda sua produção”

Bruna se considera honrada de estar entre os nomes da nova MPB, e justamente por isso quer deixar claro porque veio, “todos ficam se perguntando quem vai ocupar o trono de grande cantora, mas essa não é a minha preocupação, a única coisa que quero é consolidar meu trabalho e atingir o maior público possível, não quero cantar só pra quem gosta de MPB”, afirma.

Pernambucana sim, regional não.

Karina Buhr (www.myspace.com/karinabuhr) nasceu em Salvador, aos oitos anos mudou-se para o Recife, e por isso considera-se uma pernambucana. Lá freqüentou desde menina as apresentações dos grupos de Maracatu e Cavalo Marinho, origem de seu gosto pela percussão.

Depois de passar por algumas bandas da cidade, montou em 1998 o Comadre Fulozinha, grupo musical que Karina dirige, assina as letras do repertório, e divide os vocais com mais cinco pessoas.

Nesse mesmo ano, depois de uma apresentação do grupo do Teatro Oficina, Zé Celso foi a um show do Comadre Fulozinha na Soparia, famoso bar em Recife onde o Mangue Beat começou, e convidou Karina para integrar o elenco de Bacantes. Ela não aceitou. Em 2003 o convite foi refeito e ela mudou-se para São Paulo para fazer parte da produção de Os Sertões.

Karina ficou cinco anos no Teatro Oficina e achou a experiência maravilhosa, mesmo com a rotina pesada de ensaios, 10 horas por dia, seis vezes por semana.

“Na época em que estava no teatro não tinha muito tempo para a banda, e isso foi me fazendo pensar em outros projetos. Eu estava afim de fazer um som totalmente diferente do Comadre Fulozinha, sem percussão, usando os recursos que São Paulo me oferecia”, conta.

Dessa vontade nasceu o seu projeto solo. Algumas músicas podem ser ouvidas na internet, ou na MTV, a música “O Pé” é a trilha do seriado Os Descolados, mas o disco fica pronto só em setembro. “Outra diferença entre o Comadre Fulozinha e o outro projeto é que, apesar de eu compor todas letras, as da banda falam de coisas mágicas, fábulas, e as do trabalho solo eu estava afim de falar coisas mais pessoais”, explica Karina.

Ao ouvir Karina interpretar suas músicas uma característica chama atenção: o acento forte de seu sotaque pernambucano. E esse seu jeito de cantar acabou lhe rendendo um rótulo que não lhe agrada tanto.

“Insistem em dizer que eu faço música regional, nesse meu novo trabalho não tem percussão e eu canto até rock, mas mesmo assim quando eu vou fazer algum show dizem que é música do Recife”, e ela completa, “Um produtor aqui de São Paulo disse certa vez que se eu quisesse gravar seria melhor eu mudar meu sotaque, fiquei indignada, e por isso eu prefiro gravar meus CDs de maneira independente”.

E justamente pela diversidade que Karina oferece em seu repertório que ela não se considera uma cantora tradicional, “o brasileiro gosta muito desse formato já estigmatizado da cantora, mas eu acho que fujo disso porque sou totalmente dependente da minha composição, nunca me imaginei só intérprete.” Sorte de quem gosta de música.

O samba a persegue, e ela não nega.

Paulistana apaixonada por sua cidade, Mariana Aydar (www.myspace.com/marianaaydar) nasceu com a música no sangue. Filha de Mário Manga, um dos integrantes do Premeditando o Breque, e de uma produtora musical, passou sua infância nas coxias dos teatros acompanhando seus pais.

Tocou violão, violoncelo, tentou ser atriz, mas no final sempre encontrava a realização quando cantava. Aos 17 anos, época em que o Forró Universitário era moda nas casas noturnas de São Paulo, Mariana passava as noites dançando, até o momento em que foi chamada para dar uma “canja” em um dos shows. Dessas participações nasceu a banda Caruá,

Assim que a moda do forró foi cessando Mariana sentiu que era preciso se repensar musicalmente, e foi estudar em Paris.

“Na época em que estava na França absorvi coisas que se refletiu na minha música, a primeira foi a efervescência cultural de Paris, que me permitiu ter contato com todas as possibilidades de arte. A segunda coisa, que é um paradoxo, é que lá eu via de outro ângulo as coisas boas e ruins do meu país. E por mais que tenham tantas coisas ruins é incrível como nós realmente sabemos viver mais felizes”, diz impressionada.

Ao voltar para o Brasil, Mariana veio decidia a gravar um disco, e que sua base musical definitivamente seria o samba, o forró, e todas as possibilidades que a música brasileira oferece. O cd Kavita 1 foi lançado em 2006.

“No primeiro cd eu gravei músicas de compositores que eu gostava, que de alguma forma fizeram parte da minha vida. Quando comecei a fazer o projeto do segundo disco muitos compositores contemporâneos cruzaram meu caminho, e eu me encantei com o trabalho deles”, conta Mariana.

Peixes, Pássaros, Pessoas, lançado em 2009, é um retrato de experiências vividas nesses último três anos, diz Mariana, e ao mesmo tempo uma forma de mostrar que existe uma nova geração talentosa de músicos compondo questões atuais com grande qualidade.

“A convivência com essas pessoas influenciou meu trabalho, tanto que assim que a gravação do disco acabou eu comecei a compor, e estou gostando disso, a composição é a forma mais autentica de expressão.”

“Quando decidi que queria cantar meu pai disse pra mim, ‘você tem certeza?’ aquilo me frustrou, mas o amor pela música não me deixou fazer outra coisa. Hoje eu vejo as dificuldades que ele tentou me alertar”.

Essas dificuldades que Mariana aponta são a falta de incentivo que as rádios dão para os artistas que estão começando, não tocando suas músicas, e a falta de casas de shows médias, com capacidade entre 300 e 400 pessoas.

“Um problema do Brasil é que ou se toca nos bares, ou nas ‘music halls’, casas enormes. Então uma cantora como eu, que não é totalmente desconhecida, mas ainda não é super famosa, encontra dificuldade em fazer shows”, revela. Apesar de ter feito seu cd com uma grande gravadora, Mariana acredita que por causa da pirataria, nunca venderá 2 milhões de discos nem poderá contar com investimento de divulgação da gravadora, e que por isso fazer shows em cidades como Manaus, e Recife, fica cada vez mais difícil.

Uma época de cantoras?

As três entrevistadas são unânimes em dizer que não, que essa opinião sempre surge por ai, mas é muito mais um foco midiático do que uma realidade musical. E a jornalista Patrícia Palumbo concorda:

“Não estamos vivendo uma época de explosão de cantoras, mas na verdade uma explosão de jovens artistas e compositores se manifestando livremente. Esses meninos e meninas trazem a herança do tropicalismo organicamente, por isso a diversidade musical chega novamente à música popular brasileira.”

A jornalista continua, “Como não existe mais o sistema da indústria fonográfica como era nos anos 80 e 90, eles têm a liberdade de fazerem o que querem, tanto que muitos deles gravam seus CDs em casa e usam a internet como forma de divulgação, e eu acho isso super confortável, é uma nova ordem musical que eles estão acompanhando.”

Mas Patrícia aponta para o fato de que hoje as mulheres não se contentam em serem só intérpretes, estão cansadas da canção antiga que fala de amor, e por isso estão em busca de outros universos. “É muito saudável essas meninas não quererem ser comparadas a ninguém e se oporem a essa lógica de mercado, quantas Marisa Monte a indústria fonográfica não tentou impor para nós?”

Representante do novo samba carioca, a cantora Teresa Cristina, ao lado do Grupo Semente, teve um papel importante nos fim dos anos 1990, na revitalização cultural do bairro da Lapa. Seu primeiro cd, em 2003, contou só com músicas do Paulinho da Viola, já o segundo e todos os outros estão cheios de suas composições.

“Quando eu comecei a compor quase não tinha mais mulher escrevendo samba, por isso eu acho ótimo cada vez que aparecem compositoras. Os sambas antigos são lindos, mas traz uma temática machista, as mulheres são sempre responsáveis pela dor. Com o ‘eu feminino’ escrevendo outros temas vão virar samba”, afirma Teresa.

Para Patrícia Palumbo a diversidade musical do Brasil, que mistura swing, boa letra, e bom ritmo, é que faz a música brasileira ser superior as demais. Então já que somos brasileiros e da geração online, é melhor não perder tempo e ir procurar na internet, além dos nomes citados, Anelis Assunção, Claudia Dorei, Tulipa, Nina Becker, Roberta Sá…

Matéria publicada na Caros Amigos de agosto

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UNIDADE MISTERIOSA ESCONDE JOVENS INFRATORES

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Criada em 2006, a prisão-hospício é um depósito do Judiciário onde estão internados os casos considerados perigosos devido ao diagnóstico de “transtorno antissocial”.

Se Roberto Aparecido Alves Cardoso não fosse interno da Unidade Experimental de Saúde (UES), na Vila Maria, em São Paulo, quase nada se saberia do lugar. Digitando o nome da instituição no Google, 1.022 ocorrências aparecem, a maioria sobre o dia em que o jovem foi encaminhado para lá.
Roberto Alves Aparecido Cardoso, mais conhecido como Champinha, foi um dos acusados pelo assassinato do casal Liana Friedenbach e Felipe Caffé, na cidade de Embu Guaçu, em São Paulo, no ano de 2003. Os jovens, que eram estudantes do São Luiz, colégio da burguesia paulistana, namoravam e foram acampar durante o feriado sem que suas famílias soubessem.
Em um primeiro momento foram dados como desaparecidos, mas dias depois o mistério se revelou: o casal foi sequestrado por moradores da região. Felipe foi morto com um tiro de espingarda disparado por Paulo César da Silva Marques, o Pernambuco. Liana foi mantida em cárcere privado sendo estuprada e torturada, até ser morta a facadas por Champinha.
Todos que fizeram parte do crime – além dos já citados participaram do estupro Antônio Caetano, Antônio Matias e Agnaldo Pires – foram condenados. Champinha, na época com 16 anos, foi levado para a Febem, hoje Fundação Casa, para cumprir os três anos previsto pelo ECA, Estatuto da Criança e do Adolescente, em medida socioeducativa.
Um dos poucos links que aparecem no Google, e não ligam Champinha à UES, é do próprio site da Fundação Casa. O conteúdo, do ano de 2006, informa sobre a construção da Unidade. A proposta era criar na cidade de São Paulo um sistema de referência no tratamento de jovens que cumprem medida socioeducativa e apresentam distúrbios psicológicos, através da parceria Fundação Casa (na época FEBEM), a ONG Santa Fé, e a Universidade Federal de São Paulo, que se responsabilizaria pelo tratamento psiquiátrico. Era um terreno com cinco casas, abrigando até oito jovens cada.
“O que a gente escuta nos bastidores é que o Dr. Raul Gorayebe, professor de psiquiatria da Unifesp e idealizador do projeto, queria escolher tanto os profissionais, quanto os jovens que iriam ser encaminhados para a Unidade, e a Fundação Casa não concordou. Com isso a parceria foi quebrada”, conta Fernanda Lavarello, conselheira do Conselho Regional de Psicologia de São Paulo.
Com a parceria desfeita, e a obra concluída, a UES ficou seis meses vazia.

Champinha e a UES
Pouco antes de Champinha completar três anos da medida socioeducativa, e ser colocado em liberdade, o Ministério Público entra com o processo para converter a medida socioeducativa em medida protetiva de tratamento psiquiátrico com contenção, o que garantiria sua permanecia na Fundação Casa até os 21 anos.
Na iminência da segunda medida se extinguir, o Estado entra com pedido de interdição civil cumulada com internação hospitalar compulsória no Fórum de Embu Guaçu. A juíza expede uma liminar favorável ao Estado, pedindo a transferência de Champinha para a Casa de Custódia de Taubaté.
A internação hospitalar compulsória, modalidade mais grave prevista pela lei 10.216/2001 da Reforma Psiquiátrica, não deriva de um crime, mas de um laudo médico que constate a necessidade do internamento. A gravidade é que a internação independe da vontade da própria pessoa, ou de sua família.
“Para esse tipo de internação, o artigo sexto da lei diz que é necessário fazer um laudo médico circunstanciado (naquela oportunidade), e isso não aconteceu, eles usaram os laudos feitos na ocasião da medida socioeducativa”, diz Daniel Adolpho Assis, do Centro de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente (CEDACA Interlagos), e advogado do jovem. Outra inconsistência que Daniel aponta na liminar, é que Champinha não poderia ser encaminhado para a Casa de Custódia de Taubaté por ele ainda estar sob respaldo do ECA, além de que a Casa de Custódia só recebe adultos que cometeram crimes e apresentam transtorno mental.
Nesse meio tempo Champinha foge da Fundação Casa, logo é pego e levado para a UES.

A refundação da UES
Depois de seis meses vazia a UES recebe seu interno mais famoso em maio de 2007. Em novembro desse mesmo ano o governador de São Paulo, José Serra, expede o decreto 52.419/2007, transferindo o imóvel da UES para a Secretaria de Saúde. Um Termo de Cooperação Técnica entre Saúde, Administração Penitenciária, e Fundação Casa firmava que a UES abrigaria adolescentes e jovens, autores de atos infracionais que cumpriram medida socioeducativa, e tiveram sua medida revertida em protetiva, já que apresentam diagnóstico de transtorno de personalidade antissocial, e/ou alta periculosidade.
Segundo a juíza corregedora do DEIJ, Departamento das Execuções da Infância e da Juventude, Mônica Paukoaski, a saúde mental é um dos fatores importantes que fazem parte da trajetória de recuperação dos adolescentes autores de atos infracionais, já que esses problemas interferem diretamente no resultado do processo sócio-educativo. “Os laudos do Imesc, Instituto de Medicina Social e Criminologia, apresentaram ao Judiciário a necessidade do jovem portador de transtorno mental (os mais comuns eram deficiência mental, esquizofrenia, e transtorno de personalidade) ser acompanhado em local adequado sob contenção”, completa.
“Essa nova Unidade vai na contramão de todas as conquistas da luta antimanicomial e do ECA. O que eles fizeram foi um manicômio judicial para jovens”, diz Fernanda Lavarello, que também faz parte do Grupo Interinstitucional, que debate questões sobre criança/adolescente, justiça, e saúde mental.
A luta antimanicomial é travada no Brasil desde a década de 1980, e sua principal conquista foi a aprovação da lei 10.216/2001, que garante ao portador de transtorno mental que a internação só será indicada depois que todos os recursos extra-hospitalares de tratamento se esgotarem.
Segundo Maria Cristina Vicentin, professora do programa de pós-graduação em Psicologia Social da PUC-SP, alerta para que a cidade de São Paulo colocou diversos impasses durante o processo de construção da reforma de saúde mental, como o lobby dos hospitais psiquiátricos que visam interesses mercantilistas na saúde. Para ela, a relação entre periculosidade e loucura é historicamente construída no começo do século XIX, por psiquiatras que entendiam a sua ciência como aquela capaz de identificar a dimensão mais íntima do sujeito que pode emergir a qualquer momento. “Depois da Segunda Guerra Mundial profissionais dos diversos campos se juntaram para fazer a desconstrução dessa idéia, respaldados por estudos epidemiológicos e estatísticos que mostram que não existe proporcionalmente um número maior de pessoas com transtorno mental que cometem atos infracionais, assim os loucos cometem tantos crimes como os ditos normais.”
Em uma pesquisa feita entre os anos de 2005 e 2006, antes da inauguração da UES, a professora apontava para o fenômeno de psiquiatrização do jovem autor de ato infracional, um modo de gestão que usa o transtorno mental para provocar mecanismos de segregação e ampliação do tempo de internação.
Outro fator identificado é a volta do diagnóstico de transtorno de personalidade antissocial, “foi o caso do Roberto (Champinha) que trouxe isso, pois a mídia e a opinião pública fizeram uma pressão tão grande que ou se revia a maioridade penal, ou aumentaria o tempo de internação, que é um projeto em andamento. Mas, como nada saiu do papel, utilizar os mecanismos de internação psiquiátrica, mais interdição, foi o jeitinho que eles deram para driblar a lei”.

Transtorno antissocial
Entre os transtornos de personalidade identificados pelo Imesc está a personalidade antissocial, “na maioria dos casos não havia diagnóstico fechado, mas que o jovem apresentava traços de tal personalidade”, conta a juíza Mônica Paukoaski.
O diagnóstico de transtorno de personalidade antissocial é questionado por algumas áreas da psicologia, apesar de constar na Classificação Internacional de Doenças Mentais.
Segundo Fernanda Lavarello, é a análise de um comportamento que foi externalizado a partir de um ato de transgressão, negando toda a historicidade do sujeito e o fato de o crime ser produto de vulnerabilidade social. “O cometimento de um ato infracional não implica no cometimento de transgressões futuras, ninguém tem bola de cristal para prever o que vai acontecer.”
Depois do Termo de Cooperação Técnica assinado, mais cinco jovens foram encaminhados para a Unidade Experimental de Saúde, todos com o mesmo diagnóstico: transtorno de personalidade antissocial e alto grau de periculosidade.
E a juíza Mônica Paukoaski alerta: “Apesar de se tratar de questão polêmica, não foi o judiciário que preconizou a necessidade de atendimento sob contenção, mas os médicos de órgão oficial do Estado. Além de que os jovens que se encontram hoje na UES não estão internados por determinação do DEIJ, mas foram interditados pela justiça comum.”
No caso específico de Champinha, “o Roberto foi pego como bode expiatório para inaugurar essa instância arbitrária e de exceção que a Justiça está utilizando. Todos os jovens que estão lá cometeram crimes contra pessoas da classe média e alta em suas cidades de origem, que ganharam grande repercussão na mídia”, diz Daniel Adolpho. Este completa sua denúncia: “ninguém tem coragem de cumprir a lei e assinar pela libertação do Roberto porque ninguém quer enfrentar a opinião pública e o pai da Liana, que tem bastante influência financeira e política..”
A juíza rebate a crítica, “Se existe uma anomalia psíquica, e a área médica aponta isso, não podemos devolvê-los à sociedade sem o acompanhamento de uma equipe multidisciplinar.”
Mas há outras s irregularidades. Daniel Adolpho conta que não existe um regimento interno da Unidade, que quem é internado não tem previsão do tempo de pena que irá cumprir, e que nenhum tratamento psíquico acontece no local. “O que o Roberto me conta é que mais ou menos a cada 15 dias vai um psicólogo lá, conversa um pouco com ele, pergunta precisa de algum remédio, e só. Nem o jovem, nem o seu defensor público, podem ter acesso ao prontuário médico, violando mais uma vez a lei 10.216.”
“Mesmo quem se diz defensor dos direitos humanos torce o nariz quando se fala sobre o caso do Roberto, mas é importante saber que quando ele fosse liberado ele não ia simplesmente sair da Fundação Casa. As psicólogas que acompanharam todo o processo dele já estavam articulando uma rede em outro estado pro qual ele e toda a sua família mudaria. Eles entrariam no serviço de proteção a testemunha, se necessário até mudariam de nome, com isso ele continuaria tendo um acompanhamento judicial”, finaliza Fernanda Lavarello.

Ninguém sabe, ninguém viu.
A assessoria de imprensa da Secretaria da Saúde foi procurada pela reportagem para tentar uma entrevista com o chefe de Gabinete Nilson Paschoa. A resposta foi: “O que temos a informar é que a decisão sobre a internação das pessoas atendidas na Unidade Experimental de Saúde é feita pela Justiça. A Secretaria de Estado da Saúde mantêm esta estrutura para atender pacientes encaminhados por decisão judicial.”
Tanto os laudos periciais que encaminham os jovens para a UES, quanto o tratamento psiquiátrico daqueles que cumprem medida socioeducativa na Fundação Casa são feitos pelo Nufor, Núcleo de Psiquiatria Forense do Hospital das Clínicas. O coordenador do núcleo, Daniel Martins de Barros, informou:
“O Nufor vem prestando assistência psiquiátrica apenas aos internos da Fundação Casa em unidades regulares da capital. A Unidade Experimental de Saúde não está sob responsabilidade da Fundação Casa, não fazendo parte do nosso escopo de assistência.”
Também foi procurado Vitor Manuel da Silva Monteiro, diretor da UES, mas um funcionário da administração disse que ele estava de férias fora do Brasil e não havia ninguém ocupando seu cargo nesse período, além de que nenhum funcionário estaria capacitado nem autorizado para falar com a imprensa.
“A Unidade Experimental de Saúde desvirtuou-se do seu caminho e não está funcionando da forma proposta pelo judiciário, jamais uma unidade de saúde mental deve assumir feições de manicômio judiciário. O transtorno de personalidade antissocial é um diagnóstico sério que precisa ser enfrentado com responsabilidade. Jovens que contam com esse diagnóstico precisam de uma atenção especial, a idéia não é segregar, mas acompanhar o jovem até que se obtenha algum avanço”, finaliza a juíza Mônica Paukoaski.

Matéria publicada na Caros Amigos de julho.

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MULHERES DE CORAGEM

carosamigosjunho2009

Vítimas da violência doméstica, elas encontram nas casas-abrigo a proteção e a chance de mudar de vida

Ana é a responsável pela limpeza do centro social de uma igreja na grande São Paulo. Morena bonita, beirando os 35 anos, conversa bastante e sorri enquanto trabalha. Quando dá meio-dia, hora de seu almoço, avisa: “Vamos porque só tenho uma hora.” Enquanto seguimos em direção a uma das salas, explico que a matéria é sobre abrigos para mulheres que sofrem violência doméstica. Ana começa a tremer, e assim que sentamos ela diz, com voz engasgada: “falar disso ainda é muito difícil pra mim.”
Baiana de Salvador, Ana conheceu seu ex-marido, D., quando ainda era menina. “Ele sempre ficou atrás de mim, dizendo que me amava, até que, aos 18 anos, aceitei namorar com ele”. Depois de um tempo juntos, D. mudou-se para São Paulo para “tentar a vida”. Sete meses depois, Ana foi fazer uma visita ao namorado, e acabou ficando. Nunca suspeitou da agressividade do companheiro.
O primeiro soco aconteceu depois de quatro meses na capital paulista. “Estávamos em uma festa quando percebi que ele estava me desrespeitando, dando em cima de outras mulheres na minha frente. Falei isso pra ele, mas ele não respondeu nada. Assim que chegamos em casa, ele se transformou. Trancou a porta do quarto e me deu um soco na cara. Me fez deitar de lado no chão, sem roupa, e disse que se eu me mexesse ia me esfaquear. Fiquei assim das seis da manhã até às sete da noite”, recorda Ana. A alegação que D. dava para bater na esposa era que Ana não era mais virgem quando começaram o relacionamento.
Também foi nessa época que D. ficou desempregado e entrou para a vida do crime. Não demorou muito pra que fosse preso. No feriado de sete de setembro, Ana estava em casa quando o marido apareceu. Tinha fugido. “Fiquei com medo, mas deixei que ficasse lá porque eu ainda gostava dele. Foi dessa vez que eu engravidei. Em nenhum momento ele aceitou a gravidez, me batia e xingava toda hora, dizia que ia abrir minha barriga com a faca e tirar a criança de dentro.”
Com o tempo, as agressões foram aumentando. Ana era agredida verbalmente. Tapas e pontapés também eram comuns. Até que chegou a vez do abuso sexual.
Depois de um assalto que D. e os amigos fizeram, eles foram comemorar com uma festa na casa de Ana, que durou o dia todo. “Eles usaram muita droga. Fiquei esperando do lado de fora, até que anoiteceu e eu precisava colocar meu filho pra dormir. Quando entrei em casa, ele olhou pra mim e disse: ‘me espera lá em cima porque hoje eu estou animado e quero transar com você a noite inteira’. Deitei na cama e fingi que estava dormindo, estava morrendo de medo. Quando ele chegou perto, cumpriu o que disse. Me estuprou durante toda a noite.”

Mais violência
Ana não reagia. Entrou em depressão, largou o emprego, parou de tomar banho e chegou a pesar 38 quilos. Só saía de casa às segundas-feiras, para levar o filho na fonoaudióloga. Nunca buscou ajuda, até o dia da inauguração de uma Casa de Referência em sua rua. No entanto, mesmo sabendo dos seus direitos, Ana não quis fazer boletim de ocorrência.
Só depois da terceira fuga de D. da penitenciária, Ana começou a mudar de opinião. Mesmo sem ter mais nenhum vínculo afetivo com o marido, ela aceitou a permanência dele na casa até que arrumasse um lugar para ficar. Enquanto isso, ele dormiria em um colchonete na cozinha. As agressões só pioraram.
“Ele me xingava o dia inteiro de puta, de vagabunda, dizia que eu só estava fazendo aquilo porque estava com outro homem. Era tanto palavrão que o meu filho falava: ‘respeita a minha mamãe, meu papai’”.
Muitas noites, Ana acordava assustada achando que estava sendo alisada. “Tinha certeza que ele estava fazendo isso, mas fazia eu me passar por louca”. Certa vez, acordou no meio da noite com um barulho de faca raspando no chão. “Fui correndo na cozinha ver o que estava acontecendo, abri uma das gavetas e vi que o facão de cortar coco tinha sumido. Ele começou a dar risada e me mostrou o facão escondido embaixo do colchão, disse que ia me matar naquela noite. Acho que ele só não me matou porque meu filho ajoelhou nos pés dele implorando pra ele não fazer nada.”
O ponto final chegou no dia em que Ana virou a agressora. “Mais uma vez, durante a noite acordei com ele querendo se masturbar em cima de mim, com o meu filho deitado do meu lado. Fiquei maluca, fora de mim. Cravei minha unha na bochecha dele até sair sangue. Ele não teve reação nenhuma, só pedia para eu parar de fazer aquilo em nome do nosso filho – argumento que eu sempre usava quando ele me batia. Enquanto isso, eu enchia ele de soco, de mão fechada mesmo. Mordia com tanta força, que tirava os pedaços de carne da boca. Só parei quando meu filho acordou chorando e viu o pai todo ensanguentado. Foi ali que eu vi que não podia mais continuar naquela vida, dentro daquela casa. Quando amanheceu, o D. saiu, eu peguei algumas peças de roupa, filho, cachorro, e fui direto pra Casa de Referência. De lá, fui levada pra um abrigo”.

Luta do movimento feminista
“Mas o que é um abrigo?”. Tal pergunta, que não saía da cabeça de Ana durante o percurso entre a Casa de Referência e o local, também é uma questão obscura pra maioria da população. Geralmente confundido com albergues para pessoas que estão em situações de desamparo social, como andarilhos e meninos de rua, as casas-abrigos são resultado dos anos de luta do movimento feminista no Brasil.
Durante a década de 1970, o Brasil vivia seus anos mais duros. A ditadura militar assolava o país com repressão e tortura. Enquanto o debate sobre o tema fervilhava, o movimento feminista trazia a público outro tipo de violência que acontecia no âmbito privado, a violência contra a mulher.
O período foi marcado por dois assassinatos que ganharam grande repercussão. Em 1970, o procurador da Justiça Augusto Carlos Eduardo da Rocha Monteiro Gallo matou com 11 facadas a esposa Margot Proença Gallo. Em 1976, Doca Street atirou três vezes no rosto e uma na nuca da namorada Ângela Diniz. Ambos os assassinatos foram motivados por ciúmes e supostas traições, e, quando levados à justiça, foram justificados como legítima defesa da honra.
No entanto, foi só na década de 1980 que os assassinatos de mulheres pelos seus parceiros foram reconhecidos como crime. Mais uma vez, as feministas tomaram à frente, na ausência de políticas públicas para o tema. Assim, criaram, em 1980, o SOS Mulher, centro de apoio que contava com trabalho de advogadas, psicólogas e grupos de reflexão, tudo com trabalho voluntário.
Pouco depois, foi criada a Delegacia da Mulher, e em 1986, a Secretária de Segurança Pública montou o Comvida, Centro de Convivência para Mulheres Vítimas de Violência Doméstica, primeira casa-abrigo do Brasil. Hoje, o país conta com 70 abrigos, sendo 16 deles no Estado de São Paulo.
A casa abrigo é o local onde são levadas mulheres que estão sendo ameaçadas de morte por seus companheiros. Com endereço sigiloso, a mulher que procura esse serviço já é vítima de violência doméstica crônica.
Quando consegue identificar essa situação, é necessário que ela deixe tudo pra trás: casa, emprego, amigos. É recomendável, até, que tire o filho da escola. Só assim consegue preservar sua vida. E foi isso que aconteceu com Ana.

Políticas públicas

Mas o abrigo não é um hotel, nem um mero depósito de mulheres. Quem explica a função do serviço é a teóloga Haidi Jarschel. De acordo com ela, para apresentar resultados, uma política de abrigo deve estar ancorada em um tripé: “Na segurança e proteção das mulheres e seus filhos, garantindo boas instalações, alimentação, higiene, e ética dos profissionais em relação ao sigilo absoluto do lugar; no trabalho psicossocial, no sentido de fortalecer essas mulheres para elaborar um novo projeto de vida que rompa com o ciclo de violência; e na rede de políticas publicas em volta que possam oferecer suporte quando ela sai do abrigo. E este é o grande problema”.
Haidi foi por vários anos coordenadora do Abrigo Regional do ABC, projeto bem sucedido que, através de um consórcio entre as sete cidades da região, já atendeu centenas de mulheres.
Para a teóloga, o trabalho regional é interessante não só pelo fato dos municípios dividirem os gastos com o serviço, que custa, em média, de R$ 800 a R$ 1000 por pessoa (esse valor inclui apenas alimentação, água, luz, e pagamento dos profissionais que trabalham na casa); mas porque também contribui com a segurança da mulher.
No entanto, mesmo com todos os benefícios que o abrigo pode proporcionar, ele não deve ser entendido com um fim, nem mesmo trabalhar sozinho, apontam especialistas. Hoje, o serviço de apoio à mulher encontra-se ancorado na tríade: casa de referência, delegacia da mulher e casa-abrigo. Porém, todas as entrevistadas registraram o sucateamento das delegacias, que trabalham com funcionárias mal treinadas.
De acordo com a coordenadora da Casa de Referência Eliane de Gramont, Graziela Acquaviva, o abrigo também tem que estar ligado a uma rede de políticas públicas em sua volta. No entanto, na prática, não é isso que acontece, pois “em tempo de Lei Maria da Penha, o abrigo deveria ser o último dos recursos. Se a polícia garantisse a segurança daquela mulher que conta com a medida de proteção que impede a aproximação do marido, ela não precisaria deixar tudo pra trás”, critica.

Ausência de dados
Graziela lembra também que “outra coisa muito importante que não existe é uma política de aluguel social, que seria uma alternativa ao abrigo, pois a mulher, recebendo a ajuda do Estado, conseguiria reconstruir sua vida com autonomia”, afirma.
O trabalho com mulheres vítimas de violência se torna mais complicado, pois no Brasil não existem dados oficiais sobre a violência doméstica. De acordo com a psicóloga Paula Prates, que durante cinco anos foi coordenadora do abrigo Casa da Mamãe, e que deixou o trabalho para fazer mestrado sobre mulheres abrigadas, “como nunca fizeram uma pesquisa para ser usada como referência nos atendimentos, resolvi fazer o mestrado pra entender a violência de maneira teórica”.
Paula relata que durante os anos de trabalho no abrigo, “o que mais me intrigava era o fato de que o número de mulheres que passavam por lá e conseguiam depois reconstruir uma nova vida, era quase o mesmo daquelas que voltavam para o agressor”.
Na avaliação da pesquisadora, o foco do trabalho dos abrigos deve ser a desconstrução da maneira como as abrigadas se reconhecem como mulher, e a construção de uma nova identidade, tentando “fazê-las entender que sofrem violência de gênero, ou seja, que apanham de seus maridos porque vivemos em uma cultura patriarcal que legitima a dominação do homem sobre a mulher”.
Para a teóloga Haidi Jarschel, a casa-abrigo não é apenas um lugar de esconderijo e proteção, mas também representa uma grande oportunidade das mulheres refazerem suas vidas. Foi isso mesmo que Ana fez. Um mês vivendo no abrigo foi suficiente pra que ela se reerguesse. Cheia de força e vontade de lutar, foi atrás de emprego. Desde então, está trabalhando no centro social.
Apesar do prazo estipulado para permanecer no abrigo ser de seis meses, como seu caso envolvia um parceiro criminoso, Ana ficou abrigada por onze. Durante esse tempo, aproveitou para juntar dinheiro, e, quando saiu, alugou uma casa para ela e o filho, pagando três meses adiantados.
Desde então, toda sua atenção está voltada aos tratamentos psicológicos que seu filho recebe. O histórico de violência desencadeou crises nervosas e de ansiedade, que o faz comer tudo que vê pela frente, como lápis de cor e cola.
Mas mesmo com todas essas vitórias, Ana ainda é uma mulher em risco. Seu ex-marido está preso em Recife, Pernambuco, por latrocínio (roubo seguido de morte), e ameaça, de dentro da prisão, a família de Ana.
Por isso, seus familiares não sabem onde ela mora, nem têm seu número de telefone. Ana olha no relógio, 13 horas em ponto: “Agora eu preciso ir, vou almoçar rapidinho pra voltar ao trabalho”. Trocamos um abraço forte, agradeço pela entrevista, ela responde: “Eu que agradeço por me deixar falar”.

Matéria publicada na Caros Amigos de junho.

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A HISTÓRIA DE UM POVO

O massacre em Gaza no começo de 2009 é apenas mais um episódio da história da dominação israelense na Palestina.

No período entre o final do ano de 2008 e janeiro de 2009 mais um banho de sangue aconteceu. O exército israelense “em resposta” aos foguetes lançados pelos Hamas – Movimento de Resistência Islâmica, que em 2006 ganhou as eleições palestinas com 56% dos votos – promoveu um verdadeiro genocídio contra a população da Faixa de Gaza. Mais de 1300 foram pessoas mortas, e entre elas mais de 400 crianças, desencadeando uma crise humanitária.

A violência foi tão absurda que foram bombardeados duas escolas da ONU, e um armazém que abrigava refugiados e armazenava mantimentos, inclusive os que foram enviados pelo governo brasileiro,tendo como pano de fundo a declaração da chanceler Tzipi Livnil, que disse “quando Israel for atacado, retaliará.”

E isso foi o mais ouvido nos últimos tempos. Para a grande mídia e as principais potências, dando maior destaque aos Estados Unidos, Israel é uma vítima dos ataques terroristas do Hamas, tendo total direito de se defender, e invadir Gaza por terra para exterminar os membros da facção.

O que não é revelado, é que a ocupação israelense inclui áreas não legalizadas pela ONU.A partir dessa afirmação o conflito muda de perspectiva, o Hamas, um grupo de milicianos armados, que se tornou um partido político, torna-se junto de todos os palestinos, um movimento de resistência contra o império militar e da tentativa de colonização.

A Palestina Histórica

A chamada Palestina Histórica é todo o território que engloba hoje Faixa de Gaza, Israel, e Cisjordânia. Antes da decisão de construir lá um estado judeu, que implicaria na desapropriação de terras de árabes que a habitavam há séculos; a região fazia parte de uma grande extensão interligada ao mundo árabe.

Com o histórico de sucessivos golpes dos grandes impérios, no século XIX a Palestina fica sob o comando do Império Turco-Otomano, somando cerca de 500 mil habitantes. Entre eles a pluralidade religiosa, muçulmanos, cristãos, e judeus conviviam em harmonia e tinham os mesmos direitos, mesmo sendo a grande maioria muçulmana, cristalizando a sua cultura na região. Ainda na ocasião, o número de cristãos não somavam 10%, os de judeus, nem 5%.

Sionismo: o nacionalismo judeu

Ainda no final do século XIX os judeus sofrem um duro golpe: O governo czarista resolve culpá-los por todo mal que vinha sofrendo o povo russo, milhares são mortos.

Em meio a essa complicada situação, buscando refúgio nos outros países da Europa, o judeu nascido em Budapeste, Theodor Herzl, publicano final do século XIX, um documento que diz que os judeus deveriam ter a sua própria terra, onde eles mesmos sejam os senhores.

Tais idéias são inspiração para o Sionismo, corrente política que defendia a criação de um estado exclusivamente judeu. Depois de estudarem lugares como Uganda, Argentina, e até mesmo a Amazônia, chegaram a conclusão que o melhor lugar seria a Palestina, já que essa era a terra prometida por Deus.

Assim, em 1897, é realizado o 1º Congresso Sionista, onde abertamente propuseram um projeto colonial para a Palestina, com a intenção de tornar ali definitivamente o seu lar.

Nesse mesmo congresso fica instituída a criação de uma agência de propaganda, para divulgar e incentivar a imigração judaica para a Palestina, mobilizando cada vez mais pessoas que iam em busca da nova terra. A adesão se intensifica quando em 1917 o governo inglês, agora exercendo seu comando sobre a Palestina, aprova a criaçãode um Lar Nacional Judaiconaquelas terras.

“Isso foi uma grande loucura. O debate no âmbito do direito internacional não aceita essa reivindicação, porque se você considerar que quem morou há mais de dois mil e quinhentos anos atrás em determinada terra tem direito a ela, é preciso devolver os Estados Unidos aos índios cherokees, povo que morava lá originalmente. O direito a terra é de quem nela habita e toma conta”, diz o sociólogo e arabista Lejeune Mirhan, que tem uma coluna no site http://www.vermelho.org há sete anos inteiramente dedicada ao Oriente Médio.

Com tal notícia o povo árabe começa a se alarmar e perceber que com o fluxo imigratório, em poucos anos eles seriam substituídos pelos estrangeiros. Diversos conflitos acontecem, prenúncio do que estaria por vir.

Com a ascensão de Hitler e a intensificação do anti-semitismo na Alemanha nazista, outro pico de imigração é registrado, só em 1935 são 65 mil judeus entrando na Palestina. O governo inglês, percebendo a dimensão do problema que estava se formando, e os conflitos entre os grupos que poderiam acontecer, tenta barrar a entrada de mais judeusna região.

E é nessa ocasião que os judeus rompem com a Inglaterra para aliarem-se ao país que é seu braço direito até hoje, os Estados Unidos

Israel: Estado Bandido

Visando expandir seu poder e influencia no Oriente Médio, os Estados Unidos tem um papel protagonista nessa história. Ainda para Mirha, “Quandoo comércio era basicamente marítimo, todas as rotas que saiam da Índia e da China para chegar a Europa passavam pela Palestina para atravessar o Mediterrâneo, tornando a região estratégica. Já no século XX, desgraçadamente os Estados Unidos fizeram um furinho e descobriram que o Oriente Médio é a região mais petrolífera do mundo, sendo necessário colocar ali uma cabeça de lança que defendesse seus interesses. A solução foi apoiar a criação de um Estado totalmente artificial.”

Incentivando a imigração para a Palestina, os americanos financiavam a compra de armamento pelos judeus, que embasados na idéia do “soldado cidadão” treinavam seu povo militarmente para combate. E é essa força militar que é usada em atentados contra aldeias palestinas, como no episódio do massacre da aldeia de DERIASSIM, dois anos antes da criação do Estado de Israel, onde 247 pessoas, incluindo mulheres e crianças, foram mortas pelo grupo judeu sionista Irgun.

Mas esse e outros atentados contra os palestinos não ganharam repercussão. O mundo, principalmente a Europa, se sentia culpado pela conivência que tiveram com os crimes cometidos durante o Holocausto, e a maneira de se redimir foi colocar a questão judaica em primeiro plano.

A criação do Estado de Israel se tornou pauta na agenda internacional, até que em reunião na sede da Organização das Nações Unidas, em Washington, durante uma votação apertada, 33 votos a favor – incluindo o do Brasil e da União Soviética, e 30 contra; ficou declarado oficialmente que a partir de 14 de maio de 1948, o mapa do mundo ganharia mais um país, Israel.

Para o sociólogo a resolução da ONU foi polêmica, implicando na criação de dois Estados, o de Israel e o Palestino, sendo que o primeiro teria 52% das terras, e o segundo 48%.

“Todos os países árabes votaram contra Israel, pois aqueles que antes eram donos de 100% da terra perderam em uma assinatura 52% dela. Sem contar que as terras israelenses eram as mais aráveis, os palestinos ficaram com a parte mais seca. Hoje chamamos Israel de estado bandido porque a única resolução da ONU que o estado acatou foi essa, todas as outras ele descumpre. E isso foi possível ver nesta última ocupação em Gaza, com o uso indiscriminado de fósforo branco.”

Anakba

Enquanto os judeus comemoravam sua vitória, e os sionistas se preparavam para ser o grupo político hegemônico dentro do novo país, o dia 14 de maio de 1948 foi para os palestinos o dia da Anakba, que em árabe quer dizer catástrofe.

O território palestino foi limitado às regiões da Faixa de Gaza, Cisjordânia, e parte oriental de Jerusalém, e as pessoas que viviam onde se construiria o novo país foram violentamente retiradas de suas casas pelo embrião do poderoso exercito israelense, dando início à saga dos refugiados palestinos.

“Quando Ben-Gurion proclama o Estado de Israel, ele traz junto de seu projeto imperialista travar uma guerra contra seus vizinhos, e ocupar seus territórios, e é isso que vemos até hoje. Os Estados Unidos financiam as invasões israelenses, eles tem uma ligação umbilical tão estreita que todo o ano separam 5 bilhões de seu orçamento para ser enviado a Israel”, revela Lejeune Mirhan.

E o sociólogo continua: “Desde a fundação do Estado de Israel existia um projeto chamado ‘Grande Israel’, que consistia na ocupação de toda a Palestina, o Sinai, o Sul do Líbano, e parte do Egito. Tanto que em 1967, Israel monta uma grande ofensiva militar que fica conhecida como Guerra dos Seis Dias, momento em que o exercito israelense pegou todos os países árabes de surpresa, dizimando toda a força aérea egípcia, síria e jordaniana, sem antes delas terem conseguido decolar.”

Nesse momento Israel expande consideravelmente suas fronteiras – antes da Guerra dos Seis Dias o território palestino já estava restrito a 22%, conseqüência de constantes ocupações – limitando a Palestina àquilo que é hoje, apenas 8% de toda a terra.

Mesmo a ONU considerando totalmente ilegais as terras conquistadas nesse episódio, e votando a resolução 242 que exigia a retirada de todos os assentamentos israelenses em terras árabes, Israel nunca a cumpriu.

A resistência palestina

O povo palestino, ao perder seu território, perde também a sua dignidade. A condição de refugiado em outros países árabes, ou mesmo dentro da pequena porção de terra que lhe sobrou é precária, sem infra-estrutura, mas mesmo assim a luta pela libertação é um sentimento em comum.

A resistência a ocupação israelense sempre existiu, mas foi só em 1958 que se constituiu a primeira unidade de luta palestina, o Fatah, frente popular fundada por Yasser Arafat. Mesmo com a morte de Arafat em 2004, seu nome e sua luta pela paz é uma referência ao povo palestino e ao mundo.

Mas nesse primeiro momento o Fatah é considerado uma organização ilegal, tendo como princípio negar a existência do Estado israelense. Para isso era preciso treinar seus militantes, sendo sua principal atuação os atentados com bombas.

Logo após nacionalizar o Canal de Suez, enfrentando a Inglaterra, quando o líder egípcio Nasser propõe a criação de uma organização que trabalhasse pela libertação da Palestina, assim em janeiro de 1964 todos os líderes árabes se juntam para fundar a OLP, Organização pela Libertação da Palestina, cujo lema é “União, Mobilização, e Libertação.”

Em pouco tempo Arafat se tornaria presidente da OLP, e em decorrência das atrocidades geradas pela Guerra dos Seis Dias sua posição se radicaliza, seria preciso pegar em armas e lutar pela construção do Estado Palestino, lugar onde muçulmanos, judeus, e cristãos viveriam em paz.

Com isso o conflito armado se eleva ao primeiro plano, em um período de mais de vinte anos muitas pessoas sofrem com as calamidades provocadas por uma constante guerra, sem contar as milhares de mortes de ambos os lados. Muitos líderes da OLP são mortos no mundo todo, em contrapartida atentados são cometidos contra os israelenses.

Yasser Arafat leva mais uma vez o assunto para a ONU tendo como arma de troca a exportação do petróleo produzido no Oriente Médio, Arafat faz um apelo a todos os países em prol da causa palestina, proclamando sua célebre frase: “Sou um rebelde, minha causa é a liberdade.”

Mais uma vez, nenhuma atitude da comunidade internacional.

Mobilizados contra os excessos da ocupação, os refugiados palestinos do campo de Jabaliyah iniciam, em 1987, a primeira Intifada, uma manifestação que levou pessoas ás ruas empunhando pedras e paus contra as armas e fuzis israelenses.

A Intifada ganhou repercussão internacional quando foram divulgadas fotos de soldados israelenses abusando de palestinos, quebrando suas mãos e braços, assim como determinavam as ordens de seu governo.

Ciente da batalha assimétrica, e do abuso de força promovida por Israel, a OLP recua a sua posição e Yasser Arafat vai a Genebra declarar o reconhecimento da existência de dois Estados, um Israelense e outro Palestino, e que a partir daquele momento rejeitaria todas as formas de terrorismo em favor da luta pela Paz.

A primeira reação de Israel é a desconfiança, além de manter a posição que a OLP era um grupo terrorista, por isso não a reconheciam nem dialogariam com a organização. Mas devido às pressões internacionais em 1993 é assinado o acordo de Oslo, que consistia no esforço de ambos os lados para a criação do Estado palestino ao lado do israelense.

Uma das resoluções do acordo é a criação da ANP, Autoridade Nacional Palestina, uma espécie de governo sem Estado, que através de eleições diretas elege seu presidente. O primeiro foi Arafat, em 1996.

O Hamas

É durante a primeira Intifada, em 1987, que nasce o Movimento de Resistência Islâmica, o Hamas, fundado pelo xeque Àhmede Ýassin e seus tenentes. A principal influência sobre o Hamas é a Fraternidade Muçulmana, movimento islâmico do Egito, religioso extremista, que atingiu caráter de grupo político.

Opondo-se à decisão do Fatah de reconhecer a existência do Estado de Israel, o Hamas resgata a origem do grupo de Arafat e diz em sua carta de fundação que não aceita a existência de Israel, preconizando uma Palestina islâmica que abrigue diversas religiões em seu território.

Seguindo a tradição dos grupos de resistência, o Hamas, além de se engajar no debate político e promover programas assistencialistas para a população, mantém o seu braço armado, as chamadas Brigadas Azzeddine AL-Qassam, responsáveis pela produção e lançamentos dos foguetes caseiros em direção ao território israelense.

Em pouco tempo a reação violenta do Hamas, em resposta a ocupação,foi considerada como prática terrorista pelos Estados Unidos, União Européia e Japão.

“Acontece que o conceito de terrorismo depende mais de quem o aplica que da realidade. Quando os israelenses ajudaram o Hamas a firmar-se, os terroristas eram os seguidores do arqui-inimigo Yasser Arafat, mas as posições se inverteram quando o Hamas venceu as eleições. Sem contar que se terrorismo for o ato de atacar o inimigo matando inocentes, então todos os lados praticam terrorismo, e se estes forem medidos quantitativamente a balança de atos de terror pende mais para Israel, praticando terrorismo de Estado.”, diz o Embaixador brasileiro Arnaldo Carrilho, que atua junto ao Mecanismo ASPA (América do Sul – Países Árabes), e é ex-representante junto à ANP.

As eleições aque o Embaixador se refere à cima foram as eleições para o Parlamento Palestino, em 2006, que o Hamas, já consolidado como um grupo político, atingiu 56% da preferência popular, tornando-se maioria. E Carrilho acrescenta, “As eleições demonstraram o apoio do povo palestino ao Hamas, quando até cristãos depuseram seus votos nas urnas favoráveis aos candidatos do movimento. Com esses últimos ataques a Gaza o apoio deve ter aumentado, mas só um sufrágio límpido e transparente, como foi o de há três anos, poderia comprová-lo.”

A opção dos palestinos em eleger um grupo apoiado no fundamentalismo religioso, pode ser vista como uma nova tentativa da sociedade em buscar resoluções para a sua causa, já que os anos liderados pelo Fatah, de origem secular, nunca obteve sucesso efetivo em suas negociações.

O que aconteceu pós-eleições foi o total desrespeito ocidental contra a soberania dos palestinos. Por ser considerado terrorista e desconsiderando as decisões democráticas, Israel junto de seus aliados impôs um bloqueio econômico à Faixa de Gaza, fechando suas fronteiras com o Egito, impedindo a entrada de alimentos e medicamentos, isolando ainda mais a região com maior densidade demográfica do mundo, com cerca de 1 milhão e 400 mil habitantes.

O bloqueio intensificou-se ainda mais quando o Fatah recusou-se a compor o novo governo, e ainda opôs-se a entregar parte da administração ao Hamas, gerando um conflito interno na região, que acabou com todos os membros do Fatah sendo expulsos da Faixa de Gaza.

“Por várias vezes, os líderes do Hamas sinalizaram sua disposição de filiar-se à OLP, mas os dirigentes do Fatah não aceitaram sua participação majoritária”, conta o Embaixador.

Quem saiu prejudicado dessa briga política foi mais uma vez o povo palestino, que viu seu governo fragilizado ainda mais ao ser dividido em dois pólos: um sob o comando da ANP e do Fatah na Cisjordânia, representado por Mahmoud Abbas, e outro sob o comando do Hamas e de seu primeiro-ministro Ismael Haniyeh, na Faixa de Gaza.

O modo encontrado de furar o bloqueio foi através dos túneis clandestinos ligando Gaza ao Egito, transportando através deles, além de itens básicos para manter a população, armas para o Hamas, vindas do país vizinho.

Com o fim do acordo de cessar-fogo, e a ação militar israelense em Gaza no dia 4 de novembro, o Hamas voltou a lançar seus foguetes, que atingem de 15 a 40 quilômetros de distância.

Como represália, e especula-se que seja uma manobra eleitoreira, já que as eleições em Israel se aproximam, seu exército invade em 27 de dezembro de 2008 a Faixa de Gaza por terra, e através de ataques aéreos com o objetivo de acabar com todos os membros do Hamas.

A operação ganha formato de massacre étnico, já que a desigualdade armamentista frente ao conflito é gritante. Durante os mais de 20 dias da nova ocupação, 1.300 palestinos morrem, do lado israelense são 13. De todos os lados as mortes são lamentáveis.

“Eu não apoio ações violentas do Hamas, no entanto consigo compreender um jovem que coloca dinamite no seu corpo porque teve sua casa destruída por um bombardeio, sua mãe estuprada por soldados, e seu pai preso e torturado. Que perspectiva esse jovem tem?” desabafa Lejeune Mirha.

As resoluções do conflito

Depois de muito diálogo no campo da diplomacia, liderados pela França com apoio do Egito, Israel optou no último dia 18 de janeiro, dois dias antes da posse de Barack Obama, por um cessar-fogo unilateral, reivindicado o fechamento dos túneis clandestinos.

Os Estados Unidos permaneceram quietos durante todo o período da ocupação, e o presidente Barak Obama disse apenas que os Estados Unidos não poderia ter duas vozes – pois na ocasião ele ainda não tinha sido empossado – decepcionando parte do mundo, e alertando ao novo presidente que a questão palestina terá que ser prioridade em sua agenda.

Em um primeiro momento a liderança do Hamas não aderiu ao cessar fogo, já que a sua luta é pela abertura total das fronteiras, mas depois cedeu e declarou que irá parar de lançar os foguetes durante sete dias.

O debate no mundo árabe sobre a paz é divergente, a proposta da ANP é a de que Israel recue para as fronteiras de 1967, fazendo o território palestino voltar aos 22%, desocupem todas as colônias na Cisjordânia, permitam a volta dos refugiados, e declarem a parte oriental da Jerusalém como a capital palestina.. Já para o Hamas essas reivindicações sinalizariam apenas uma trégua. Israel se opõe a todos esses aspectos.

A filósofa judia – alemã, Hannah Arendt, refugiada nos Estados Unidos na perseguição nazista, dedicou grande parte de sua obra estudando a questão da liberdade e sua repressão nos momentos que emergem regimes totalitários.

Certa vez Arendt escreveu que “a essência dos Direitos Humanos, é o direito a ter direitos”, e o que se notou durante toda a história, ainda mais nesse último mês de janeiro, é que o poder imperialista nega ao povo palestino o direito a terra, e nela serem cidadãos.

Matéria publicada no site da revista Caros Amigoa em janeiro

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